PRIORIDADES
Por Lya Luft
Muito do que gastamos (e nos
desgastamos) nesse consumismo feroz podia ser negociado com a gente
mesmo: uma hora de alegria em troca daquele
sapato. Uma tarde de amor em troca da prestação do carro do ano; um fim
de semana em família em lugar daquele trabalho extra que está me
matando e ainda por cima detesto.
Não sei se sou otimista
demais, ou fora da realidade. Mas, à medida que fui gostando mais do meu
jeans, camiseta e mocassins, me agitando menos, querendo ter menos, fui
ficando mais tranquila e mais divertida. Sapato e roupa simbolizam bem
mais do que isso que são: representam uma escolha de vida, uma postura
interior.
Nunca fui modelo de nada, graças a Deus. Mas
amadurecer me obrigou a fazer muita faxina nos armários da alma e na
bolsa também. Resistir a certas tentações é burrice; mas fugir de outras
pode ser crescimento, e muito mais alegria.
Cada um que
examine o baú de suas prioridades, e faça a arrumação que quiser ou
puder. Que seja para aliviar a vida, o coração e o pensamento - não para
inventar de acumular ali mais alguns compromissos estéreis e mortais.
(Lya Luft)
Este espaço é dedicado a publicações sobre as Ciências da Alma e da Mente - Neurociências, Neuropsicologia, Psicologia, o Ser Humano, a Consciência, Memórias e Pensamentos.
terça-feira, 30 de abril de 2013
domingo, 21 de abril de 2013
APRENDIZAGEM/ENSINAGEM: MUNDOS QUE SE CONECTAM.
Ao
aprender e ensinar somos mundos que se conectam: o eu e o outro na
busca do conhecer, do saber, do saber fazer, do ser fazer saber, do
saber fazer-se SER. Como ensinantes e aprendentes, somos o sal da terra,
a luz do mundo, o fermento na massa, pois agirmos em prol da evolução
de todos. Sermos generosos neste movimento é propiciar a alegria do
exercício coletivo e pleno da autoria de pensamento, da autonomia do
sujeito humano, vivendo as aventuras e desventuras de interagir no
movimento do mundo, complexo por excelência.
Arte: Alex Gray
Aprender é ensinar, ensinar é aprender.
Ao aprender e ensinar somos mundos que se conectam: o eu e o outro na busca do conhecer, do saber, do saber fazer, do ser fazer saber, do saber fazer-se SER. Como ensinantes e aprendentes, somos o sal da terra, a luz do mundo, o fermento na massa, pois agirmos em prol da evolução de todos. Sermos generosos neste movimento é propiciar a alegria do exercício coletivo e pleno da autoria de pensamento, da autonomia do sujeito humano, vivendo as aventuras e desventuras de interagir no movimento do mundo, complexo por excelência.
Cada sujeito aprendente e ensinante é um mundo particular, repleto de suas vivências, que vão muito além de tão somente ser seres da cognição. Somos emoção e vida, morte e essência, somos fruto de um tempo, resultado de nosso caminhar humano de evolução. A construção/reconstrução de uma nova “civilização”, onde a afetividade seja repleta de amorosidade, nos convoca a pensar num outro mundo possível, onde a teia da vida (re)signifique práticas, fomente o desejo de mais e melhor vida, nos tempos e espaços de nossas intervenções, sempre compreendidas como uma (re)invenção cotidiana de viver e estar junto com os outros, sempre diversos de nós mesmos.
Aprendizagem/ensinagem são processos de co-autoria, de co-participação: se aprende com alguém que ensina, se ensina quando alguém aprende. Uma nova sociedade, de fato aprendente, compreende o ser em sua inteireza, percebe que somos irmanados no sentido pleno desta palavravida, percebe as palavras como essência de mundo, essência do existir.
Nossa constituição como sujeitos é resultante de todo este processo e será possível um outro tempo somente se buscarmos a renovação diária de nossas ações e condutas e se percebemos o mundo como uma grande possibilidade de encontro humano. É no espaço e no tempo do aprenderensinar que podemos encontrar significados e sentidos para nossas existências e urge (re)configurar modelos, rever atos e fatos, criar novas metodologias, mais ativas e participativas, onde o intercâmbio de saberes e ignorâncias possibilite a (re)criação de um novo ser humano, que se perceba como um sujeito desejante do (re)encontrar-se consigo mesmo, elaborando a assunção amorosa de nossas tantas limitações, de nossas potencialidades e possibilidades, de nossos dons pessoais.
Aprender e ensinar é (re)encontrar-se com outros sujeitos também desejantes, reconhecendo em todos e em cada um o seu próximo, o seu semelhante, um irmão, um amigo, um co-autor de sua subjetividade, de sua história e lenda pessoal. Aprender e ensinar é (re)encontrar-se com nossa humana natureza, nem sempre em nós presente de forma consciente, mas que é sempre fomentadora de novos vínculos entre o eu e outro, entre o outro e o mundo, entre os diferentes eus e os outros, que juntos interagem como viventes na imensa comunidade humana que nos constitui.
Aprender e ensinar é sabermos de nosso passado, é vislumbrarmos um futuro, mas essencialmente é nos percebermos como uma grande possibilidade de fazermos, cada um de nós, a nossa parte, nos imensos desafios do nosso tempo presente: por isso, devemos desejar, agir e buscar elaborar nossos processos e ações como ensinantes, eternos aprendentes, aprendentes eternos ensinantes de nosso tempo presente, acreditando, vinculando, pesquisando, aliando teoria e prática, reconstruindo, promovendo a autoria de pensamento, educando pela pergunta, pela aprendizagem significativa, pela emancipação humana. Caminhos do coração. Estradas da emoção, pontes do afeto. Termina o espaço da escrita, fica o desejo da partilha. Faça contato. Saúde e Paz para tod@s.
Artigo originalmente publicado em: Caminhos da Psicopedagogia: o referencial da ABPp no Sul de Minas. Informativo do Núcleo Sul Mineiro da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Varginha, Julho de 2008.
Ao aprender e ensinar somos mundos que se conectam: o eu e o outro na busca do conhecer, do saber, do saber fazer, do ser fazer saber, do saber fazer-se SER. Como ensinantes e aprendentes, somos o sal da terra, a luz do mundo, o fermento na massa, pois agirmos em prol da evolução de todos. Sermos generosos neste movimento é propiciar a alegria do exercício coletivo e pleno da autoria de pensamento, da autonomia do sujeito humano, vivendo as aventuras e desventuras de interagir no movimento do mundo, complexo por excelência.
Cada sujeito aprendente e ensinante é um mundo particular, repleto de suas vivências, que vão muito além de tão somente ser seres da cognição. Somos emoção e vida, morte e essência, somos fruto de um tempo, resultado de nosso caminhar humano de evolução. A construção/reconstrução de uma nova “civilização”, onde a afetividade seja repleta de amorosidade, nos convoca a pensar num outro mundo possível, onde a teia da vida (re)signifique práticas, fomente o desejo de mais e melhor vida, nos tempos e espaços de nossas intervenções, sempre compreendidas como uma (re)invenção cotidiana de viver e estar junto com os outros, sempre diversos de nós mesmos.
Aprendizagem/ensinagem são processos de co-autoria, de co-participação: se aprende com alguém que ensina, se ensina quando alguém aprende. Uma nova sociedade, de fato aprendente, compreende o ser em sua inteireza, percebe que somos irmanados no sentido pleno desta palavravida, percebe as palavras como essência de mundo, essência do existir.
Nossa constituição como sujeitos é resultante de todo este processo e será possível um outro tempo somente se buscarmos a renovação diária de nossas ações e condutas e se percebemos o mundo como uma grande possibilidade de encontro humano. É no espaço e no tempo do aprenderensinar que podemos encontrar significados e sentidos para nossas existências e urge (re)configurar modelos, rever atos e fatos, criar novas metodologias, mais ativas e participativas, onde o intercâmbio de saberes e ignorâncias possibilite a (re)criação de um novo ser humano, que se perceba como um sujeito desejante do (re)encontrar-se consigo mesmo, elaborando a assunção amorosa de nossas tantas limitações, de nossas potencialidades e possibilidades, de nossos dons pessoais.
Aprender e ensinar é (re)encontrar-se com outros sujeitos também desejantes, reconhecendo em todos e em cada um o seu próximo, o seu semelhante, um irmão, um amigo, um co-autor de sua subjetividade, de sua história e lenda pessoal. Aprender e ensinar é (re)encontrar-se com nossa humana natureza, nem sempre em nós presente de forma consciente, mas que é sempre fomentadora de novos vínculos entre o eu e outro, entre o outro e o mundo, entre os diferentes eus e os outros, que juntos interagem como viventes na imensa comunidade humana que nos constitui.
Aprender e ensinar é sabermos de nosso passado, é vislumbrarmos um futuro, mas essencialmente é nos percebermos como uma grande possibilidade de fazermos, cada um de nós, a nossa parte, nos imensos desafios do nosso tempo presente: por isso, devemos desejar, agir e buscar elaborar nossos processos e ações como ensinantes, eternos aprendentes, aprendentes eternos ensinantes de nosso tempo presente, acreditando, vinculando, pesquisando, aliando teoria e prática, reconstruindo, promovendo a autoria de pensamento, educando pela pergunta, pela aprendizagem significativa, pela emancipação humana. Caminhos do coração. Estradas da emoção, pontes do afeto. Termina o espaço da escrita, fica o desejo da partilha. Faça contato. Saúde e Paz para tod@s.
Artigo originalmente publicado em: Caminhos da Psicopedagogia: o referencial da ABPp no Sul de Minas. Informativo do Núcleo Sul Mineiro da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Varginha, Julho de 2008.
Enviado por Joao Beauclair em 07/12/2008
Prof. João Beauclair.
Arte-educador, Psicopedagogo, Mestre Em Educação, Doutorando em Intervenção Psicosocioeducativa pela Universidade de Vigo, Galícia, Espanha.
Arte-educador, Psicopedagogo, Mestre Em Educação, Doutorando em Intervenção Psicosocioeducativa pela Universidade de Vigo, Galícia, Espanha.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Trabalho, família e aparência definem sucesso para mulheres
Antropóloga discute o papel assumido por mulheres brasileiras de classe média no mercado de trabalho
Nina Neves, da
GettyImages
"Para a mulher brasileira, diferente do que acontece em outras culturas, o trabalho tem que vir junto com uma vida familiar feliz, com tempo para si", diz Mirian Goldenberg
A antropóloga Mirian Goldenberg contou o que percebeu sobre
as profissionais brasileiras em mais de 15 anos de pesquisas e 5 000
pessoas entrevistadas.
Pesquisadora de antropologia cultural e sociologia na Universidade
Federal do Rio de Janeiro e autora de livros como "A Outra" e "Toda
Mulher É Meio Leila Diniz", Mirian estuda atualmente o envelhecimento e a
cultura da felicidade.
Na entrevista a seguir, ela fala da relação das mulheres brasileiras
com a disputa entre vida profissional e pessoal e da crescente
necessidade masculina por uma vida mais equilibrada nestes aspectos.
O que você observa sobre o perfil das profissionais brasileiras que já entrevistou nas suas pesquisas?
Mirian Goldenberg - Para a mulher brasileira,
diferente do que acontece em outras culturas, o trabalho tem que vir
junto com uma vida familiar feliz, com tempo para si, com pelo menos um
filho.
As pessoas da classe média, que é o objeto da minha pesquisa, não abrem
mão disto. O corpo também é uma preocupação para elas. É como se
tivessem três grandes áreas a dominar para serem felizes e bem
sucedidas: trabalho, família e a aparência.
Com isto, muitas mulheres no Brasil acabam se auto excluindo de
posições de liderança porque esta posição não permite que possam
investir da mesma maneira nas outras áreas da vida.
Costuma-se falar que as mulheres são discriminadas, mas ninguém fala desta auto exclusão que também acontece.
A dedicação exigida por postos de liderança faz com que mulheres abram
mão deste crescimento, pois a maior ambição delas não é o sucesso e
reconhecimento profissional. Elas querem isso, mas não é a maior
prioridade da vida.
Sheryl Sandberg, chief operating officer do Facebook e autora
do livro recém-lançado Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e a Vontade
de Liderar, defende que
parte desta auto exclusão das mulheres se dá pelo fato delas serem menos
estimuladas a ter uma personalidade ambiciosa, competitiva e agressiva.
Você concorda com isso?
Mirian Goldenberg - Não acho que as mulheres sejam menos ambiciosas e agressivas, isso é um estereótipo. O que encontro no mercado de trabalho são mulheres que têm todas estas características e são, sim, competitivas.
Não acredito que isto tenha a ver com gênero, isso tem a ver com caráter. Na Alemanha, por exemplo, é mais fácil fazer uma opção pela carreira. O valor de família, filhos e aparência, não é tão forte na cultura alemã. Lá o que se vê é a “cultura do ou”, elas optam por uma coisa ou outra, pois entenderam que não precisam ter tudo.
Qual a parcela de culpa das empresas e do atual modelo de trabalho? Em sua opinião, se exige demais dos executivos, o que é especialmente mais difícil para as mulheres, que não querem deixar de dar atenção aos outros âmbitos da vida?
Mirian Goldenberg - Se você quer ser super bem sucedido em qualquer profissão, é preciso muita dedicação. Não é só uma questão das empresas, mas de competição entre profissionais.
Vou te dar um depoimento pessoal: para eu ser reconhecida no meu trabalho preciso me dedicar muitíssimo e isso é uma prioridade para mim. Não digo que estou certa nem errada, mas a minha paixão e meu foco me levam a me dedicar quase exclusivamente ao trabalho. E é isso que as empresas desejam, este tipo de profissional.
Dizer que é culpa das empresas é não enxergar que existem pessoas que, com ou sem empresa, têm uma dedicação própria. Alguns são mais apaixonados e querem investir mais no trabalho.
Isso é normal, já que é o próprio indivíduo que elege suas prioridades. A maioria das mulheres que entrevisto na minha pesquisa não quer a posição de liderança, e não só por uma questão de flexibilidade, mas também pela tensão, por ter que mandar em outras pessoas, pela cobrança.
Aliás, vejo cada vez mais homens que também não querem isso. Ambos os gêneros estão preferindo vidas menos atribuladas, mesmo que deixem para trás salários bem maiores.
A cultura atual em que vivemos prioriza e valoriza o bem estar. Não adianta ganhar uma fortuna e não poder respirar. As pessoas que participam da minha pesquisa, homens e mulheres, querem tempo e qualidade de vida; são pessoas que abrem mão de cargos altos.
Mas, claro, ainda tem muita gente que quer poder e dinheiro. As pessoas só descobriram que isso tem preço alto.
Mirian Goldenberg - Não acho que as mulheres sejam menos ambiciosas e agressivas, isso é um estereótipo. O que encontro no mercado de trabalho são mulheres que têm todas estas características e são, sim, competitivas.
Não acredito que isto tenha a ver com gênero, isso tem a ver com caráter. Na Alemanha, por exemplo, é mais fácil fazer uma opção pela carreira. O valor de família, filhos e aparência, não é tão forte na cultura alemã. Lá o que se vê é a “cultura do ou”, elas optam por uma coisa ou outra, pois entenderam que não precisam ter tudo.
Qual a parcela de culpa das empresas e do atual modelo de trabalho? Em sua opinião, se exige demais dos executivos, o que é especialmente mais difícil para as mulheres, que não querem deixar de dar atenção aos outros âmbitos da vida?
Mirian Goldenberg - Se você quer ser super bem sucedido em qualquer profissão, é preciso muita dedicação. Não é só uma questão das empresas, mas de competição entre profissionais.
Vou te dar um depoimento pessoal: para eu ser reconhecida no meu trabalho preciso me dedicar muitíssimo e isso é uma prioridade para mim. Não digo que estou certa nem errada, mas a minha paixão e meu foco me levam a me dedicar quase exclusivamente ao trabalho. E é isso que as empresas desejam, este tipo de profissional.
Dizer que é culpa das empresas é não enxergar que existem pessoas que, com ou sem empresa, têm uma dedicação própria. Alguns são mais apaixonados e querem investir mais no trabalho.
Isso é normal, já que é o próprio indivíduo que elege suas prioridades. A maioria das mulheres que entrevisto na minha pesquisa não quer a posição de liderança, e não só por uma questão de flexibilidade, mas também pela tensão, por ter que mandar em outras pessoas, pela cobrança.
Aliás, vejo cada vez mais homens que também não querem isso. Ambos os gêneros estão preferindo vidas menos atribuladas, mesmo que deixem para trás salários bem maiores.
A cultura atual em que vivemos prioriza e valoriza o bem estar. Não adianta ganhar uma fortuna e não poder respirar. As pessoas que participam da minha pesquisa, homens e mulheres, querem tempo e qualidade de vida; são pessoas que abrem mão de cargos altos.
Mas, claro, ainda tem muita gente que quer poder e dinheiro. As pessoas só descobriram que isso tem preço alto.
Então mulheres e homens têm escolhido não alcançar cargos tão
altos nas empresas para continuar se dedicando aos outros aspectos da
vida?
Mirian Goldenberg - Para uma mulher é mais aceitável socialmente deixar altos cargos de lado, pois a sociedade cobra menos delas. A partir do momento em que este tipo de comportamento receber legitimidade social, mais homens se sentirão à vontade para fazer essas concessões. Na Alemanha isso já acontece, homens ficam em casa enquanto as mulheres vão trabalhar e sustentar a família. Mas isso é construído e legitimado naquela cultura, claro.
Não gosto do discurso que diz que as empresas – ou os homens, ou as mulheres – têm que mudar. Até porque já existem empresas tentando saídas, acompanhando mudanças. Acredito que uma transformação já está acontecendo.
É importante pensar em outra questão em relação a gênero e trabalho: por que para as mulheres é mais fácil dispensar a liderança e para os homens é mais difícil? Há uma pressão ainda grande sobre eles.
Não adianta culpar um lado ou outro. Tem uma cultura por trás disso tudo que permite que as mulheres digam não ou exijam que as lideranças sejam mais flexíveis, enquanto para os homens tais atitudes não são tão bem vindas assim. Eles ainda são mais cobrados – e se cobram – a ser poderosos e ter dinheiro.
Mirian Goldenberg - Para uma mulher é mais aceitável socialmente deixar altos cargos de lado, pois a sociedade cobra menos delas. A partir do momento em que este tipo de comportamento receber legitimidade social, mais homens se sentirão à vontade para fazer essas concessões. Na Alemanha isso já acontece, homens ficam em casa enquanto as mulheres vão trabalhar e sustentar a família. Mas isso é construído e legitimado naquela cultura, claro.
Não gosto do discurso que diz que as empresas – ou os homens, ou as mulheres – têm que mudar. Até porque já existem empresas tentando saídas, acompanhando mudanças. Acredito que uma transformação já está acontecendo.
É importante pensar em outra questão em relação a gênero e trabalho: por que para as mulheres é mais fácil dispensar a liderança e para os homens é mais difícil? Há uma pressão ainda grande sobre eles.
Não adianta culpar um lado ou outro. Tem uma cultura por trás disso tudo que permite que as mulheres digam não ou exijam que as lideranças sejam mais flexíveis, enquanto para os homens tais atitudes não são tão bem vindas assim. Eles ainda são mais cobrados – e se cobram – a ser poderosos e ter dinheiro.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
A delicada relação entre memória e inteligência
Uma das chaves da diferença entre capacidades intelectuais está na memória de curto prazo
| CSP/Shutterstock |
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Não por acaso, em
vários países os programas de pesquisa destinados a melhorar a
inteligência se encontram entre os que recebem mais investimento. Cada
vez mais há consenso de que melhorar a inteligência da população é
relevante, sobretudo pelos benefícios obtidos quando esse objetivo é
alcançado. Contudo, seguimos sem uma resposta clara sobre como conseguir
isso. Estudos revelam que os ganhos obtidos por meio de estratégias de
melhoria cognitiva se dissipam com o passar do tempo, após a intervenção
ser concluída. Pelo menos é esse o parecer oficial da Associação
Americana de Psicologia, após a revisão de dezenas de pesquisas nessa
área.
Nesse contexto está enquadrada, em parte, a intenção de encontrar os mecanismos mentais e cognitivos básicos sobre os quais se apoia a inteligência. Há muitos anos, cientistas vêm insistindo que alguns processos mnêmicos são essenciais para a inteligência. A memória operativa (ou de trabalho) constitui um rico e complexo mecanismo mental, mas seus processos mais básicos se consolidam sobre o armazenamento temporal da informação relevante.
A memória operativa permite o “uso” de determinada informação durante um breve período. Por exemplo, compreender a frase que você está lendo neste exato momento exige a capacidade de conservar na lembrança a primeira parte do que foi apreendido até que seja lido todo o resto – e, assim, o trecho do texto faça sentido. Trata-se da memória “de ação”, não para armazenamento, como um arquivo. Afinal, não é possível entender o que não lembramos, não podemos raciocinar a respeito de um problema que não temos em mente, cujos detalhes vão se perdendo à medida que procuramos solucioná-lo. Não é possível resolver uma questão se alguns de seus elementos se perdem no caminho ou considerar uma informação que vai se “desfazendo”.
Atualmente, existe uma extensa pesquisa sobre o tema, ainda que não concluída e, portanto, parcial. Os estudos se concentram apenas em algumas variáveis potencialmente relevantes, sendo raros os que consideram a maior parte delas de forma simultânea. Tratamos desse impasse no artigo “Podemos reduzir a inteligência fluida à memória de curto prazo?”, recentemente publicado no periódico científico Intelligence. Geralmente são medidas algumas capacidades intelectuais básicas: inteligência fluida ou abstrata, cristalizada ou cultural e visuoespacial. Também costumam ser avaliados aspectos como funcionamento executivo, atenção, velocidade mental, memória de curto prazo e memória operativa. Considerando-se as relações recíprocas, foi descoberto que o elemento comum na memória de curto prazo, na memória de trabalho e no funcionamento executivo – ou seja, o armazenamento temporal da informação – se encontrava profundamente associado à inteligência fluida.
Na prática, esse resultado nos leva a supor que as pessoas mais inteligentes têm maior capacidade para conservar, em estado ativo, a informação considerada mais relevante durante o tempo necessário para ser utilizada. Já aspectos como rapidez de raciocínio ou concentração são considerados secundários quando se trata do armazenamento de curto prazo.
Tal resultado corrobora as conclusões de outras pesquisas nas quais foram usados outros métodos de investigação. Por um lado, os estudos de neuroimagem revelam que a inteligência e a memória de curto prazo compartilham um suporte neuranatômico distribuído em regiões-chaves dos lóbulos frontais e parietais. Por outro lado, o treinamento adaptativo cognitivo embasado no aumento da capacidade para supervisionar uma maior quantidade de informação durante determinado tempo eleva significativamente o rendimento nos testes que valorizam a inteligência fluida.
Curiosamente, capacidades intelectuais superficialmente muito diferentes parecem encontrar-se fortemente ligadas por alguma classe de limitação compartilhada. Quando pudermos superar essa dificuldade, talvez estejamos mais perto de atingir um objetivo que fascina tanto cientistas quanto leigos: encontrar formas de nos tornarmos mais inteligentes.
Leia mais:
Sinestésicos têm memória melhor e são mais criativos
Inteligência para viver mais
Nesse contexto está enquadrada, em parte, a intenção de encontrar os mecanismos mentais e cognitivos básicos sobre os quais se apoia a inteligência. Há muitos anos, cientistas vêm insistindo que alguns processos mnêmicos são essenciais para a inteligência. A memória operativa (ou de trabalho) constitui um rico e complexo mecanismo mental, mas seus processos mais básicos se consolidam sobre o armazenamento temporal da informação relevante.
A memória operativa permite o “uso” de determinada informação durante um breve período. Por exemplo, compreender a frase que você está lendo neste exato momento exige a capacidade de conservar na lembrança a primeira parte do que foi apreendido até que seja lido todo o resto – e, assim, o trecho do texto faça sentido. Trata-se da memória “de ação”, não para armazenamento, como um arquivo. Afinal, não é possível entender o que não lembramos, não podemos raciocinar a respeito de um problema que não temos em mente, cujos detalhes vão se perdendo à medida que procuramos solucioná-lo. Não é possível resolver uma questão se alguns de seus elementos se perdem no caminho ou considerar uma informação que vai se “desfazendo”.
Atualmente, existe uma extensa pesquisa sobre o tema, ainda que não concluída e, portanto, parcial. Os estudos se concentram apenas em algumas variáveis potencialmente relevantes, sendo raros os que consideram a maior parte delas de forma simultânea. Tratamos desse impasse no artigo “Podemos reduzir a inteligência fluida à memória de curto prazo?”, recentemente publicado no periódico científico Intelligence. Geralmente são medidas algumas capacidades intelectuais básicas: inteligência fluida ou abstrata, cristalizada ou cultural e visuoespacial. Também costumam ser avaliados aspectos como funcionamento executivo, atenção, velocidade mental, memória de curto prazo e memória operativa. Considerando-se as relações recíprocas, foi descoberto que o elemento comum na memória de curto prazo, na memória de trabalho e no funcionamento executivo – ou seja, o armazenamento temporal da informação – se encontrava profundamente associado à inteligência fluida.
Na prática, esse resultado nos leva a supor que as pessoas mais inteligentes têm maior capacidade para conservar, em estado ativo, a informação considerada mais relevante durante o tempo necessário para ser utilizada. Já aspectos como rapidez de raciocínio ou concentração são considerados secundários quando se trata do armazenamento de curto prazo.
Tal resultado corrobora as conclusões de outras pesquisas nas quais foram usados outros métodos de investigação. Por um lado, os estudos de neuroimagem revelam que a inteligência e a memória de curto prazo compartilham um suporte neuranatômico distribuído em regiões-chaves dos lóbulos frontais e parietais. Por outro lado, o treinamento adaptativo cognitivo embasado no aumento da capacidade para supervisionar uma maior quantidade de informação durante determinado tempo eleva significativamente o rendimento nos testes que valorizam a inteligência fluida.
Curiosamente, capacidades intelectuais superficialmente muito diferentes parecem encontrar-se fortemente ligadas por alguma classe de limitação compartilhada. Quando pudermos superar essa dificuldade, talvez estejamos mais perto de atingir um objetivo que fascina tanto cientistas quanto leigos: encontrar formas de nos tornarmos mais inteligentes.
Leia mais:
Sinestésicos têm memória melhor e são mais criativos
Inteligência para viver mais
Fonte: Revista Mente & Cérebro
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Interferindo em sonhos lúcidos
Exercícios ajudam a conscientemente controlar devaneios e obter benefícios na vida real
| Herbert Kratky/Shutterstock |
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Além disso, há indícios de que formações oníricas lúcidas possam facilitar a aprendizagem de sequências de movimentos complexas. Nós todos somos capazes de realizar coisas extraordinárias em sonho: conseguimos voar, atravessar paredes ou fazer objetos desaparecerem. Segundo resultados de um estudo realizado pelo psicólogo especialista em esportes, Daniel Erlacher, da Universidade de Heidelberg, atletas com um treinamento objetivo em sonhos lúcidos conseguem internalizar mais rapidamente sequências motoras complexas, como no salto em altura.
O uso de técnicas de visualização na passagem da vigília para o sono são bastante semelhantes a esse método. Nesse caso, o objetivo é manter o controle consciente da situação imaginando determinadas sequências de movimento de forma profundamente relaxada. Aos interessados em treinar a habilidade, porém, especialistas avisam que, em geral, é preciso persistir por pelo menos três semanas até que sejam percebidos os primeiros resultados.
Leia mais:
Sonhos podem ajudar a reter informações
As respostas que vêm dos sonhos
Fonte: Revista Mente & Cérebro
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Reparos secretos durante o sono
Dormir “afrouxa” conexões neurais e restitui ao sistema cerebral um estado mais saudável
| John Hersey |
![]() |
Vivemos numa sociedade que a todo o momento nos convida à vigília.
Obrigações, demandas de trabalho e opções de diversão não faltam. São
tantas as possibilidades de distração que muitas vezes dormir parece um
desperdício – é como se, em comparação com a urgência imposta pela
vigília, o sono fosse enfadonhoe improdutivo. De fato, o cérebro
adormecido não prepara projetos para apresentar na reunião na empresa
nem responde à lista atrasada de e-mails. Exceto durante os sonhos,
nesse estado ninguém tampouco ama, planeja as próximas ferias ou realiza
muita coisa que cause admiração. No entanto, é justamente durante as
horas tranquilas, enquanto a mente está em repouso, que o cérebro faz o
trabalho essencial para todos os atos criativos: edita a si mesmo.
Guarda o que pode ser útil e também joga muita coisa fora.
Em
sua nova teoria sobre a finalidade do sono, o neurocientista Giulio
Tononi, pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison, propõe que
dormir para registrar o que aprendemos também pode estimular o
enfraquecimento de conexões cerebrais. Seus estudos sugerem que,
conforme a mente consciente se acomoda no sono, as ligações neurais que
criam sustentação para o conhecimento parcialmente “se soltam”. Embora
esse desmantelamento noturno possa parecer, à primeira vista, um ato de
autossabotagem cerebral, o neurocientista acredita que, na verdade,
trata-se de um mecanismo que melhora a capacidade do cérebro de
codificar e armazenar novas informações.
Os benefícios do sono para o aprendizado e a memória são amplamente aceitos na comunidade científica. Segundo a visão predominante, as lembranças recém-formadas são repetidas durante o sono e, durante esse processo, são registradas de forma mais intensa. No entanto, de acordo com Tononi, ao unir essas memórias, os circuitos neurais podem ser fortalecidos somente algumas vezes até chegar a sua força máxima. Ele e seus colegas reuniram evidências de que o sono também serve como um botão de reset que, de maneira uniforme, afrouxa conexões neurais para colocar o cérebro de volta em um estado flexível para que a aprendizagem possa ter lugar.
A teoria é controversa. Alguns pesquisadores do sono consideram o resultado ainda muito preliminar e apresentam a hipótese de que o sono seja um momento de consolidação e reforço da memória. Ainda assim, se Tononi estiver certo, dormir pode não ser apenas organizar memórias do passado recente – mas também garantir espaço para as memórias de experiências ainda não vividas.
A aprendizagem ocorre quando uma experiência, como ouvir uma nova música ou andar por uma cidade desconhecida, por exemplo, impõe um padrão de atividade em grupos de neurônios. A experiência altera interconexões de células: ligações entre neurônios coativos se fortificam enquanto aquelas fora do movimento se enfraquecem. Assim, as células se tornam interligadas de maneira funcional. Esta trama dedica-se a preservar um fragmento específico da experiência: a memória. Mais tarde, durante períodos “desligados” – particularmente quando estamos dormindo – o padrão registrado pela experiência se repete, conduzindo a alterações celulares que estabilizam o processo.
Embora grande parte dos pesquisadores conceba o sono como essa recapitulação de aprendizagem durante o dia, Tononi enxerga um problema em potencial nessa hipótese: se as ligações entre neurônios, as sinapses, fossem reajustadas e fortificadas ao longo de dias e noites consecutivas, as células neurais se tornariam “saturadas”. Assim como acontece com os pixels de uma imagem muito brilhante, um conjunto de sinapses uniformes potencializadas forneceria pouca informação. Da mesma forma, um cérebro nessas condições não teria como armazenar novas experiências.
Tononi também observou algumas propriedades interessantes das ondas cerebrais que ele e outros pesquisadores haviam registrado em pessoas dormindo. Cientistas há muito tempo sabem que as “ondas lentas” do sono – fase de descanso profundo em que fica mais difícil despertar – são necessárias e restauradoras. Mesmo assim, dois fenômenos específicos ainda chamavam a atenção de Tononi. Primeiro, ele identificou que pessoas privadas do sono de ondas lentas tendem a compensar o período com turnos mais longos e intensos desse tipo de sono mais tarde.
Além disso, o neurocientista notou que a intensidade do sono profundo – medida como amplitude em gravações de ondas cerebrais – cessa conforme a noite avança. Ambas as observações lhe forneceram exemplos de homeostase (a alternância de forças opostas para manter o equilíbrio do sistema biológico). O sono de ondas lentas parece “puxar” o cérebro de volta a algum tipo de equilíbrio que a vigília havia perturbado.
Tononi procurou desvendar o processo biológico que embasa as mudanças no sono de ondas lentas. Ele sabia que sua intensidade estava relacionada com a força total das sinapses. Quando os neurônios disparam em conjunto, conduzem grupos de conexões neurais à ativação em sincronia. A corrente elétrica que flui através das células neurais cria o sinal de ondas lentas (gravado com eletrodos implantados no couro cabeludo). Tononi acredita que estar acordado pode levar a uma proliferação ou ao reforço de sinapses e que a intensidade inicial elevada do sono de ondas lentas reflete essas redes celulares fortificadas. Se de alguma forma as sinapses se rompem durante este período de sono, este enfraquecimento poderia explicar por que os sinais do sono diminuem ao longo da noite.
Para embasar sua hipótese – apelidada por ele de “homeostase sináptica” – Tononi observou diretamente como as conexões se alteram entre o sono e a vigília. Em um estudo publicado em 2008, o neurocientista e seus colaboradores colheram tecido cerebral de alguns ratos em vigília e de outros animais enquanto dormiam. Para cada amostra de tecido, os pesquisadores usaram anticorpos radioativos para, de maneira seletiva, marcar várias proteínas que existem apenas nas sinapses. Curiosamente, eles encontraram quantidade significativamente maior de proteínas nos ratos acordados do que nos animais em repouso. Conclusão: existem menos sinapses no cérebro adormecido, ou seja, nessa condição as conexões têm menos recursos para comunicação eficaz – isto é, são mais fracas.
A hipótese ganha força com outro estudo publicado em 2010 pelo cientista Xiao-Bing Gao e seus colegas da Universidade Yale. Em colaboração com Tononi, a equipe de Gao gravou a atividade elétrica de neurônios individuais em fatias de tecido cerebral de roedores cochilando e em alerta. Constantemente, os neurônios se comunicam entre si por meio de pequenas correntes elétricas transportadas por meio das sinapses. Quanto mais intensa for a corrente que flui através delas, mais fortes serão as conexões. Os neurônios de roedores previamente acordados demonstraram descarga elétrica mais rápida e vigorosa do que a de animais em repouso, indicando que enquanto o cérebro dorme, os neurônios têm conexões sinápticas mais tênues. Os resultados sugerem que o cérebro alterna estados de ligações entre células neurais fracas e fortes durante o ciclo dia-noite.
MOSCAS SONOLENTAS
Se enquanto nos entregamos aos baços de Morfeu as sinapses são remodeladas, os pesquisadores devem ser capazes de ver os sinais estruturais dessas mudanças. As conexões através das quais os neurônios se comunicam podem variar em número e tamanho. Em geral, quanto maior a quantidade e o tamanho das sinapses, mais “informações elétricas” podem viajar entre dois neurônios conectados.
Os cientistas podem visualizar sinapses deixando marcas fluorescentes nas proteínas que trabalham em ambos os lados da fenda sináptica. Em 2011, Tononi e os neurocientistas de Wisconsin, Daniel Bushey e Chiara Cirelli, relataram o uso dessas técnicas para controlar o tamanho e o número de sinapses em moscas-das-frutas. Eles forçaram algumas moscas a ficarem acordadas, colocando-as em uma caixa giratória – na parte superior da rotação, os insetos sonolentos cairiam e acordariam – para verificar se protelar o sono impediria o encolhimento e a retração de sinapses. Surpreendentemente, de acordo com a hipótese de Tononi, os pesquisadores observaram maior densidade e tamanho de sinapses – em alguns casos, duas vezes maiores – no cérebro das moscas que haviam sido forçadas a permanecer acordadas em comparação com as moscas em repouso.
Em um estudo ainda mais recente, Tononi e sua equipe estenderam esses resultados a ratos. Ao rotular neurônios do córtex do cérebro desses mamíferos com indicadores fluorescentes, os pesquisadores observaram o crescimento e a retração de espinhas sinápticas – minúsculas protuberâncias arredondadas nos neurônios onde ocorrem as sinapses. Eles verificaram que a densidade total de conexões aumentou com a vigília, manteve-se elevada enquanto os animais estavam privados de sono e diminuiu somente após dormirem.
TÔNICO PARA ADORMECER
Antes que a homeostase sináptica possa ser considerada o principal motivo para dormir, os pesquisadores precisam encontrar maiores evidências de que algum aspecto ensurável da função neural – aprendizagem, memória ou percepção, por exemplo – é melhorado pela diminuição de sinapses e comprometido quando essas atividades são de alguma forma restringidas. Porém, há consenso de que não será fácil demonstrar essas provas.
Intuitivamente, sabemos que dormir é restaurador; muitas metáforas tentaram capturar esta ideia. O sono é um tônico, um bálsamo. A sabedoria popular afirma: “Nada como uma boa noite de sono entre um dia e outro”. “Dorme que passa...” Ou, como disse Shakespeare, dormir “entrelaça com cuidado os fios separados e cortados”. Ele não podia saber que o sono nos renova desfazendo no cérebro as malhas entrelaçadas durante o dia para que possamos viver e aprender novamente. Mas, de alguma forma, intuía.
Os benefícios do sono para o aprendizado e a memória são amplamente aceitos na comunidade científica. Segundo a visão predominante, as lembranças recém-formadas são repetidas durante o sono e, durante esse processo, são registradas de forma mais intensa. No entanto, de acordo com Tononi, ao unir essas memórias, os circuitos neurais podem ser fortalecidos somente algumas vezes até chegar a sua força máxima. Ele e seus colegas reuniram evidências de que o sono também serve como um botão de reset que, de maneira uniforme, afrouxa conexões neurais para colocar o cérebro de volta em um estado flexível para que a aprendizagem possa ter lugar.
A teoria é controversa. Alguns pesquisadores do sono consideram o resultado ainda muito preliminar e apresentam a hipótese de que o sono seja um momento de consolidação e reforço da memória. Ainda assim, se Tononi estiver certo, dormir pode não ser apenas organizar memórias do passado recente – mas também garantir espaço para as memórias de experiências ainda não vividas.
A aprendizagem ocorre quando uma experiência, como ouvir uma nova música ou andar por uma cidade desconhecida, por exemplo, impõe um padrão de atividade em grupos de neurônios. A experiência altera interconexões de células: ligações entre neurônios coativos se fortificam enquanto aquelas fora do movimento se enfraquecem. Assim, as células se tornam interligadas de maneira funcional. Esta trama dedica-se a preservar um fragmento específico da experiência: a memória. Mais tarde, durante períodos “desligados” – particularmente quando estamos dormindo – o padrão registrado pela experiência se repete, conduzindo a alterações celulares que estabilizam o processo.
Embora grande parte dos pesquisadores conceba o sono como essa recapitulação de aprendizagem durante o dia, Tononi enxerga um problema em potencial nessa hipótese: se as ligações entre neurônios, as sinapses, fossem reajustadas e fortificadas ao longo de dias e noites consecutivas, as células neurais se tornariam “saturadas”. Assim como acontece com os pixels de uma imagem muito brilhante, um conjunto de sinapses uniformes potencializadas forneceria pouca informação. Da mesma forma, um cérebro nessas condições não teria como armazenar novas experiências.
Tononi também observou algumas propriedades interessantes das ondas cerebrais que ele e outros pesquisadores haviam registrado em pessoas dormindo. Cientistas há muito tempo sabem que as “ondas lentas” do sono – fase de descanso profundo em que fica mais difícil despertar – são necessárias e restauradoras. Mesmo assim, dois fenômenos específicos ainda chamavam a atenção de Tononi. Primeiro, ele identificou que pessoas privadas do sono de ondas lentas tendem a compensar o período com turnos mais longos e intensos desse tipo de sono mais tarde.
Além disso, o neurocientista notou que a intensidade do sono profundo – medida como amplitude em gravações de ondas cerebrais – cessa conforme a noite avança. Ambas as observações lhe forneceram exemplos de homeostase (a alternância de forças opostas para manter o equilíbrio do sistema biológico). O sono de ondas lentas parece “puxar” o cérebro de volta a algum tipo de equilíbrio que a vigília havia perturbado.
Tononi procurou desvendar o processo biológico que embasa as mudanças no sono de ondas lentas. Ele sabia que sua intensidade estava relacionada com a força total das sinapses. Quando os neurônios disparam em conjunto, conduzem grupos de conexões neurais à ativação em sincronia. A corrente elétrica que flui através das células neurais cria o sinal de ondas lentas (gravado com eletrodos implantados no couro cabeludo). Tononi acredita que estar acordado pode levar a uma proliferação ou ao reforço de sinapses e que a intensidade inicial elevada do sono de ondas lentas reflete essas redes celulares fortificadas. Se de alguma forma as sinapses se rompem durante este período de sono, este enfraquecimento poderia explicar por que os sinais do sono diminuem ao longo da noite.
Para embasar sua hipótese – apelidada por ele de “homeostase sináptica” – Tononi observou diretamente como as conexões se alteram entre o sono e a vigília. Em um estudo publicado em 2008, o neurocientista e seus colaboradores colheram tecido cerebral de alguns ratos em vigília e de outros animais enquanto dormiam. Para cada amostra de tecido, os pesquisadores usaram anticorpos radioativos para, de maneira seletiva, marcar várias proteínas que existem apenas nas sinapses. Curiosamente, eles encontraram quantidade significativamente maior de proteínas nos ratos acordados do que nos animais em repouso. Conclusão: existem menos sinapses no cérebro adormecido, ou seja, nessa condição as conexões têm menos recursos para comunicação eficaz – isto é, são mais fracas.
A hipótese ganha força com outro estudo publicado em 2010 pelo cientista Xiao-Bing Gao e seus colegas da Universidade Yale. Em colaboração com Tononi, a equipe de Gao gravou a atividade elétrica de neurônios individuais em fatias de tecido cerebral de roedores cochilando e em alerta. Constantemente, os neurônios se comunicam entre si por meio de pequenas correntes elétricas transportadas por meio das sinapses. Quanto mais intensa for a corrente que flui através delas, mais fortes serão as conexões. Os neurônios de roedores previamente acordados demonstraram descarga elétrica mais rápida e vigorosa do que a de animais em repouso, indicando que enquanto o cérebro dorme, os neurônios têm conexões sinápticas mais tênues. Os resultados sugerem que o cérebro alterna estados de ligações entre células neurais fracas e fortes durante o ciclo dia-noite.
MOSCAS SONOLENTAS
Se enquanto nos entregamos aos baços de Morfeu as sinapses são remodeladas, os pesquisadores devem ser capazes de ver os sinais estruturais dessas mudanças. As conexões através das quais os neurônios se comunicam podem variar em número e tamanho. Em geral, quanto maior a quantidade e o tamanho das sinapses, mais “informações elétricas” podem viajar entre dois neurônios conectados.
Os cientistas podem visualizar sinapses deixando marcas fluorescentes nas proteínas que trabalham em ambos os lados da fenda sináptica. Em 2011, Tononi e os neurocientistas de Wisconsin, Daniel Bushey e Chiara Cirelli, relataram o uso dessas técnicas para controlar o tamanho e o número de sinapses em moscas-das-frutas. Eles forçaram algumas moscas a ficarem acordadas, colocando-as em uma caixa giratória – na parte superior da rotação, os insetos sonolentos cairiam e acordariam – para verificar se protelar o sono impediria o encolhimento e a retração de sinapses. Surpreendentemente, de acordo com a hipótese de Tononi, os pesquisadores observaram maior densidade e tamanho de sinapses – em alguns casos, duas vezes maiores – no cérebro das moscas que haviam sido forçadas a permanecer acordadas em comparação com as moscas em repouso.
Em um estudo ainda mais recente, Tononi e sua equipe estenderam esses resultados a ratos. Ao rotular neurônios do córtex do cérebro desses mamíferos com indicadores fluorescentes, os pesquisadores observaram o crescimento e a retração de espinhas sinápticas – minúsculas protuberâncias arredondadas nos neurônios onde ocorrem as sinapses. Eles verificaram que a densidade total de conexões aumentou com a vigília, manteve-se elevada enquanto os animais estavam privados de sono e diminuiu somente após dormirem.
TÔNICO PARA ADORMECER
Antes que a homeostase sináptica possa ser considerada o principal motivo para dormir, os pesquisadores precisam encontrar maiores evidências de que algum aspecto ensurável da função neural – aprendizagem, memória ou percepção, por exemplo – é melhorado pela diminuição de sinapses e comprometido quando essas atividades são de alguma forma restringidas. Porém, há consenso de que não será fácil demonstrar essas provas.
Intuitivamente, sabemos que dormir é restaurador; muitas metáforas tentaram capturar esta ideia. O sono é um tônico, um bálsamo. A sabedoria popular afirma: “Nada como uma boa noite de sono entre um dia e outro”. “Dorme que passa...” Ou, como disse Shakespeare, dormir “entrelaça com cuidado os fios separados e cortados”. Ele não podia saber que o sono nos renova desfazendo no cérebro as malhas entrelaçadas durante o dia para que possamos viver e aprender novamente. Mas, de alguma forma, intuía.
Fonte: Revista Mente & Cérebro
terça-feira, 9 de abril de 2013
Inconsciente comanda nossas decisões, mostram pesquisas
LILIANE ORAGGIO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Subliminar é o termo para qualificar ações, informações e sentimentos
que ocorrem abaixo do limite da consciência e é também o título do novo
livro do físico americano Leonard Mlodinow.
Nesse novo best-seller, o autor de "O Andar do Bêbado"
reúne pesquisas para atestar que até as escolhas e decisões que nos
parecem mais objetivas são forjadas no inconsciente. Mais que isso, ele
incita o leitor a dar mais crédito aos pressentimentos que surgem do
"lado escuro da mente".
"Ex" lado escuro, melhor dizer. Na visão do físico, as tecnologias que
permitem o mapeamento do cérebro --vivo e em funcionamento-- estão
mudando a compreensão sobre a atividade que ocorre abaixo da
consciência.
A existência de uma vida inconsciente paralela e poderosa não é novidade
há mais de um século. A novidade é que agora ela pode ser medida "com
algum grau de precisão", como diz Mlodinow, que vê aí uma nova "ciência
do inconsciente".
Para a maioria dos mortais, é difícil admitir que o inconsciente está no
comando. "Somos tão frágeis que precisamos inventar justificativas
lógicas para as escolhas", afirma o analista junguiano Roberto Gambini,
de São Paulo.
"O melhor é aceitar que o consciente é permeado pelo inconsciente. E
haverá sempre uma parte que vai permanecer misteriosa. Nem toda a
tecnologia é capaz de mudar isso. Mas é possível diluir essas fronteiras
e colocar essa capacidade de perceber o subliminar a nosso favor,
quando prestamos atenção aos sonhos ou dedicamos um tempo para meditar."
PALPITES
Cientistas que dirigem as pesquisas de ponta consideram que o "novo
inconsciente" é totalmente enraizado em funções orgânicas e essa seria a
chave para compreender as emoções humanas.
Não há consenso sobre isso, naturalmente: "É absurdo pensar que entender
as funções cerebrais é suficiente para lidar com os sentimentos", diz
Lídia Aratangy, psicanalista formada em biologia médica.
Em um ponto os "psis" e o físico concordam: "O inconsciente é otimista",
diz Mlodinow. "Ele nos torna mais completos e aptos para seguir na
evolução da consciência", acredita Gambini. Aratangy completa:
"Reconhecer os palpites do inconsciente pode nos ajudar a fazer escolhas
melhores".
| Editoria de Arte/Folhapress | |||
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quinta-feira, 4 de abril de 2013
Executivos estão mais inteligentes (só que menos sociais)
Para contratações de sucesso, Claudio Fernández-Aráoz, especialista na gestão de talentos, sugere a observar mais as habilidades pessoais e de relacionamento
Divulgação/HSM Management
"Desde crianças, as pessoas têm gasto
mais tempo em frente aos equipamentos que convivendo com outras pessoas e
com a própria família. A habilidade lógica é desenvolvida, mas a
emocional fica defasada", afirma Aráoz.
Esqueça a experiência, a inteligência e as graduações. Para conseguir contratações acertada, não basta olhar o histórico e a capacidade estratégica dos candidatos. A chave é observar as habilidades pessoais.
Essa é a percepção de Claudio Fernández-Aráoz, autor do livro Grandes
Decisões sobre Pessoas (DVS, 2010), escolhido pela revista Bloomberg Businessweek como um dos consultores mais influentes do mundo em identificação, contratação e retenção de talentos.
Nos últimos anos, segundo Aráoz, as pessoas têm ficado mais
inteligentes. “A cada dez anos, os testes de QI [coeficiente de
inteligência] precisam ser remodelados e se tornam mais complexos”,
afirma.
O uso de computadores e equipamentos eletrônicos cada vez mais robustos
têm sido os principais responsáveis ela evolução exponencial do
raciocínio lógico. O ônus desse avanço vem nas relações pessoais.
“A inteligência emocional tem perdido espaço, uma vez que as pessoas
estão experimentando menos contatos pessoais”, diz Aráoz. “Desde
crianças, as pessoas têm gasto mais tempo em frente aos equipamentos que
convivendo com outras pessoas e com a própria família. A habilidade
lógica é desenvolvida, mas a emocional fica defasada.”
Pesquisa da Egon Zehnder, consultoria da qual o especialista é sócio,
aponta que a inteligência emocional tem sido responsável pelo sucesso
dos executivos dentro das companhias. O índice de sucesso executivos
com habilidades emocionais bem desenvolvidas chega a 81% na Alemanha e a
80% no Japão – na América Latina, o índice é de 63%.
“Sem olhar para as habilidades pessoais, é praticamente impossível fazer uma boa contratação”, afirma Aráoz.
Aráoz determina três grupos de habilidades básicas, que serão mais ou
menos relevantes conforme o cargo e o mercado de atuação da empresa.
Auto-consciência
O auto-conhecimento é o primeiro agrupamento de habilidades
fundamentais para um candidato – seja em posição executiva, gerencial ou
operacional.
“É importante que a pessoa tenha capacidade de entender as próprias
emoções e principalmente tenha consciência de suas forças e fraquezas”,
afirma Aráoz.
Além disso, a resiliência, a adaptabilidade e o otimismo também compõem
esse grupo. No entanto, é preciso estar atento às demandas de cada
posição.“Para alguém que trabalha com fraudes, por exemplo, o pessimismo
é mais vantajoso, uma vez que potencializa sua capacidade de
identificar problemas. Já para um vendedor, o otimismo deve ser
preponderante”, diz.
Percepção social
Mais do que conhecer tecnicamente o tema de trabalho com profundidade, e
fundamental que o candidato tenha empatia e percepção de coletividade.
“Essas são habilidades sociais que fazem com que o trânsito dele entre
as equipes resulte em ganho de produtividade e eficiência”, afirma.
Gestão de relacionamentos
A capacidade de liderar e de trabalhar em equipe é essencial para
empresas que pretendem acertar na contratação. “É importante que a
habilidade de solucionar conflitos seja bastante proeminente, para que o
relacionamento aconteça sempre de forma resolutiva”, diz Aráoz.
O especialista destaca que relacionamentos éticos são a base da solução
de conflitos. Por isso, é fundamental não perder essa característica de
vista.
Fonte: Exame.com
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