terça-feira, 21 de maio de 2013

NÃO DESISTA AINDA! (Bases neurocientíficas à alegria de viver)






Todos nós buscamos a alegria de viver. Isso nada tem a ver com  negação dos problemas. Justamente os problemas são os temperos das futuras alegrias (prazer e bem-estar) de viver. Nós somos organismos que se desenvolvem qualitativamente nos processos, nas intermediações, nos meios-termos. E estes vãos insuspeitos, sempre surpreendentes, informam que todas as zonas de conforto (nossas defesas e certezas) são prejudiciais ao corpo e à mente quando alcançam tempo ilimitado, quando diminuem uma das funções do córtex pré-frontal: o pensamento. Assim sendo, mesmo nos processos, nas intermediações ou nos meios-termos, que justificam diferentes aprendizados, há que se deixar presentificar (e presenciar) os limites, os ‘nãos’, os ‘pitstops’ dos sentidos e das ações, a fim de vivenciarmos nossas imperfeições, defeitos e impossibilidades. Essa é a tônica do princípio da plasticidade cerebral, da metacognição, da possibilidade neurogenética e da convivência equilibrada.
Somos cíclicos. Somos corpos projetados no cotidiano humano em parabólicas complexas pelo prazer e pela dor. Em ambas as emoções, devemos pensar estrategicamente; devemos elaborar caminhos que mantenham, minimamente, nosso equilíbrio; devemos induzir, em todos os momentos, a geração de elementos químicos que ‘alimentem’ nosso circuito de recompensa cerebral, a saber: conjunto que sinaliza ao restante do cérebro quando algo deu certo; ou segundo Davidson (2013), circuito situado numa região do estriado ventral, abaixo da superfície cortical, no centro do cérebro, [ativado] quando as pessoas recebem ou prevêem que irão receber algo gratificante ou agradável (p.100).
Mas como ativar e induzir este sistema em situações de risco comportamental e, por conseqüência, emocional?
Hoje, diante da vida moderna, cheia de impossibilidades quanto ao tempo de reflexão, ou seja, cheia de experimentações instintivas de si e do outro, numa velocidade intensa, por invocarmos apenas lampejos das associações neuronais necessárias à formação do equilíbrio emocional, esta ativação (ou indução) só pode se dar por uma decisão, uma escolha, uma parada forçada na dinâmica da vida, na intenção da recomposição interior, na intenção da sobrevivência em sociedade.
A neurociência afirma que precisamos aumentar, estrategicamente, o funcionamento de dois componentes cerebrais: a área Tegmental Ventral (acionada quando recebe no córtex pré-frontal, um sinal de que algo interessante e positivo acaba de acontecer ou tenha grandes chances de acontecer em breve): é o momento do jorro químico (neuronal) de dopamina sobre o núcleo accubens. E o núcleo accubens propriamente dito que, segundo Davidson (2013, p.100), é a região crítica para a motivação e a sensação de gratificação, no interior do estriado ventral, com um amontoado de neurônios que secretam ou captam a dopamina (neurotransmissor ligado às emoções positivas, à motivação e ao desejo) e os opiáceos endógenos (ligados ao bem-estar).
A neurociência nos apresenta, de novo e dentro de um conjunto teórico específico, nossa capacidade de gerar e gerenciar bem estar e equilíbrio, por exemplo, diante de situações ou pessoas difíceis, cuja convivência nos é imposta por um tempo relativamente grande. Esta capacidade de reelaborar estratégias de defesa quanto às sensações ou pensamentos negativos vai além da simples indução do bem estar (alegria de viver) a que nos referimos no início deste texto. Ela só será incorporada aos nossos tantos comportamentos internos (emoções) quando sustentadas após a vivência do acontecimento estranho, a simples visualização de um fato (emoção) ruim ou a escuta de palavras incômodas.
Somos humanos em neuromodulagens internas constantes. Somos humanos capazes de modificar nossas atividades elétricas neuronais quando surpreendidos pelas distrações das certezas (e posturas) dos outros. Somos humanos investidos do poder do pensamento (e até da vontade) sobre como queremos acordar e atravessar nossos ‘dias seguintes’. Somos humanos capazes de MUDAR, de nos TRANSFORMAR, de REINAUGURAR novas (e outras) conexões sinápticas, e verdadeiramente NOS SUPERAR. É uma decisão! Neste sentido, temos que fazer parceria objetiva com nosso núcleo accubens porque ele é o receptor dos sinais de instrução do córtex pré-frontal (região de hierarquia mais avançada) para a intensificação e sustentação da sensação de alegria.
Todos os estímulos do mundo moderno afetam a todos. Ninguém foge às suas provocações. Então o que se sugere aqui, é o entendimento de que o processo de recompensa ou de reprogramação para a alegria de viver começa no cérebro e por nossas decisões de viver dentro de bases comportamentais que nos façam aprender com menos dor; que nos façam reconhecer os momentos de ‘desgoverno’ emocional; que nos façam induzir e sustentar estratégias neuronais à vontade de superar diferentes intempéries; e que nos façam entender que ATITUDE é tudo!

Não desista ainda!

Profa Claudia Nunes

Referência:
DAVIDSON, Richard J. O Estilo Emocional do Cérebro. Rio de Janeiro: Sextante, 2013.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?

05/16/2013
Marilyn Wedge, Ph.D


EQ 2-ilu


Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.
Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre - que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

Texto original em Psychology Today

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Muito além do cérebro

Hoje, após fazer a leitura da reportagem abaixo publicada pela Folha de São Paulo, pensei em escrever alguns questionamentos que fazem parte dos meus estudos em relação à Mente, Cérebro e Comportamento. Chamamos essas três bases de Ciência Psicológica. 

Muitos estudos científicos tem-se voltado para a Ciência Psicológica e Neurocientistas, Psicólogos e demais profissionais de áreas afins, não tem medido esforços em seus estudos com o propósito de encontrarem respostas que esclareçam casos como o do menino autista de 14 anos que faz mestrado em física quântica. Ele recebeu o diagnóstico de autismo e seu prognóstico de que dificilmente conseguiria aprender a ler (veja na reportagem abaixo). Mas, não foi isso que aconteceu e se revelou, como muitos outros casos tem surpreendido a ciência e a sociedade. Casos como o de Jacob tem acontecido desde os tempos mais remotos da humanidade e poderíamos mencionar vários aqui, como Beethoven, Mozart, estes, gênios da música e Albert Einstein considerado como um dos gênios da ciência; e assim muitos outros casos conhecidos. Todos foram considerados "anormais" e até mesmo com limitações cognitivas ou seja, teriam dificuldades para aprender qualquer coisa.

Como explicar tais casos, onde as limitações superaram um quadro clínico de limitações? Podemos assim dizer que essas pessoas se tornaram verdadeiros gênios na história da humanidade. Teria o cérebro essa capacidade regenerativa impressionante ou estamos diante de fatos onde a mente sobrepõe o orgão físico? Podemos considerar o cérebro apenas como um transmissor, um processador de algo muito maior, de uma memória integral, onde estão armazenadas todas as nossas lembranças, conhecimentos e habilidades ou seja todo nosso histórico de vidas? Seria a expansão da mente sobre a matéria? E de onde viria tanto conhecimento e habilidades, até então nunca vistos, uma vez que os diagnósticos comprometiam a capacidade cognitiva?

Estamos diante de uma grande incógnita, se formos considerar apenas a matéria física. Mas, porém, se considerarmos a transcendência da matéria, a existência de um corpo extra-físico que eu chamaria aqui de Espírito ou Alma, como muitos preferem chamar, digo, que desta forma poderemos encontrar respostas para muitas questões que ainda obscurecem os caminhos da ciência. Seria necessário nos considerarmos e nos vermos como seres imortais, eternos, estagiando em diversos planos, outras dimensões, em outros estados da matéria. Viver seria a única condição do Espírito, pois é vida após a vida. E  a existência de mundos paralelos, constituidos de outra matéria, invisíveis aos olhos físicos, onde estudamos, aprendemos, vivemos e evoluimos o tempo todo, sem inércia, responderia muitos desses casos. Desta forma conseguiríamos explicar muitos "por quês" sobre a nossa existência nesta matéria física - o corpo físico.

Como explicar uma criança que nunca teve aulas de piano, sentar-se ao piano e tocar uma sinfonia de Mozart ou uma criança que mal aprendeu a falar e já dominar duas ou três línguas; e assim muitos outros exemplos. Existem aqueles que defendem a hipótese de possíveis heranças genéticas, mas estas não são consistentes e não poderiam se apoiar em casos onde nenhum antepassado apresentou, enquanto vivia na matéria, tal habilidade.

Somente considerando a existência de um corpo extra-físico ou seja a existência de um Espírito imortal, com experiências e habilidades aprendidas e apreendidas em outro momento, em outra vida ou em outra condição, poderíamos explicar tanta diversidade e complexidade. Por exemplo, durante o sono, não apenas dormimos e sonhamos, também nos desprendemos do corpo físico e continuamos a viver em outros mundos ou dimensões paralelas. A vida é uma eterna continuidade. Como ter certeza disto? Estão aí os fatos e casos, basta olharmos com os olhos extra-físicos. Nossas intuições, por exemplo, quando acordamos, lugares que visitamos, algumas vezes familiares onde temos a sensação de já termos estado ali, pessoas que encontramos e muitas outras situações que permeiam nossas noites, enquanto "dormimos".

A matéria abaixo retrata muito bem meus questionamentos de que a vida é muito além do cérebro.

Ingrid Andrade Coutinho

Menino autista de 14 anos faz mestrado em física quântica

DA BBC BRASIL 

Aos dois anos de idade, o jovem americano Jacob Barnett recebeu diagnóstico de autismo, e o prognóstico era ruim: especialistas diziam a sua mãe que ele provavelmente não conseguiria aprender a ler nem sequer a amarrar seus sapatos.
Mas Jacob acabou indo muito além. Aos 14 anos, o adolescente estuda para obter seu mestrado em física quântica, e seus trabalhos em astrofísica foram vistos por um acadêmico da Universidade de Princeton como potenciais ganhadores de futuros prêmios Nobel.

BBC
O americano Jacob Barnett, 14, que tem autismo e está fazendo mestrado em física quântica
O americano Jacob Barnett, 14, que tem autismo e está fazendo mestrado em física quântica
O caminho trilhado, no entanto, nem sempre foi fácil. Kristine Barnett, mãe de Jacob, diz à BBC que, quando criança, ele quase não falava e ela tinha muitas dúvidas sobre a melhor forma de educá-lo.
"(Após o diagnóstico), Jacob foi colocado em um programa especial (de aprendizagem). Com quase quatro anos de idade, ele fazia horas de terapia para tentar desenvolver suas habilidades e voltar a falar", relembra.
"Mas percebi que, fora da terapia, ele fazia coisas extraordinárias. Criava mapas no chão da sala, com cotonetes, de lugares em que havíamos estado. Recitava o alfabeto de trás para frente e falava quatro línguas."
Jacob diz ter poucas memórias dessa época, mas acha que o que estava representando com tudo isso eram padrões matemáticos. "Para mim, eram pequenos padrões interessantes."
ESTRELAS
Certa vez, Kristine levou Jacob para um passeio no campo, e os dois deitaram no capô do carro para observar as estrelas. Foi um momento impactante para ele.
Meses depois, em uma visita a um planetário local, um professor perguntou à plateia coisas relacionadas a tamanhos de planetas e às luas que gravitavam ao redor. Para a surpresa de Kristine, o pequeno Jacob, com quatro anos incompletos, levantou a mão para responder. Foi quando teve certeza de que seu filho tinha uma inteligência fora do comum.
Alguns especialistas dizem, hoje, que o QI do jovem é superior ao de Albert Einstein.
Jacob começou a desenvolver teorias sobre astrofísica aos nove anos. No livro "The Spark" (A Faísca, em tradução livre), que narra a história de Jacob, ela conta que buscou aconselhamento de um famoso astrofísico do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, que disse a ela que as teorias do filho eram não apenas originais como também poderiam colocá-lo na fila por um prêmio Nobel.
Dois anos depois, quando Jacob estava com 11 anos, ele entrou na universidade, onde faz pesquisas avançadas em física quântica.
Questionada pela BBC que conselhos daria a pais de crianças autistas --considerando que nem todas serão especialistas em física quântica--, Kristine diz acreditar que "toda criança tem algum dom especial, a despeito de suas diferenças".
"No caso de Jacob, precisamos encontrar isso e nos sintonizar nisso. (O que sugiro) é cercar as crianças de coisas que elas gostem, seja isso artes ou música, por exemplo."

Dormir, lembrar e esquecer

Consolidação de memórias, sobretudo as traumáticas, tem relação direta com nosso sono

Por: Stephani Sutherland
 
Guryanov Andrey/Shutterstock

Os efeitos de uma noite maldormida vão muito além de mau humor e cansaço. A ciência já comprovou que horas insuficientes de sono estão relacionadas a ganho de peso, aumento de cortisol (hormônio associado ao estresse) na corrente sanguínea e queda da capacidade de armazenar recordações. Estudos recentes, aliás, revelam novos aspectos da estreita relação entre memória e sono. Um artigo publicado em Neuropsychopharmacology em outubro de 2012 apontou que dormir logo depois de passar por uma situação muito estressante pode piorar os sintomas de estresse pós-traumático (TEPT). Para simular um evento traumático, os pesquisadores expuseram roedores ao cheiro de um predador. Durante as seis horas seguintes, eles impediram metade dos ratos de dormir; os restantes formaram o grupo de controle. Os cientistas observaram que os animais que não dormiram mostraram menos sinais de estresse psicológico. Outro trabalho, publicado em Neuroscience Letters, aponta que a privação de sono pode também reduzir o impacto de lesão cerebral traumática (TBI, na sigla em inglês) – camundongos com TBI apresentaram menos sintomas de dano quando foram mantidos acordados por 24 horas depois do dano.

Reunidos, esses estudos sugerem que manter-se acordado por mais tempo depois de um evento traumático faz com que memórias desagradáveis se imprimam com menos nitidez no cérebro – ideia que vai ao encontro de descobertas que comprovam o papel do sono para fortalecer lembranças emocionais. Isso ocorre porque, quando dormimos, ocorre um “afrouxamento” natural das sinapses, as conexões entre os neurônios. Situações de estresse, porém, aumentam o nível de neurotransmissores no sangue, o que estimula sinapses. Isso, por sua vez, faz com que as recordações do trauma se imprimam na mente com maior nitidez. Segundo a neurocientista Gina Poe, da Universidade de Michigan, o afrouxamento das sinapses está associado à diminuição dos níveis do neurotransmissor noradrenalina. Em pesquisas com ratos, ela descobriu que as quantidades da substância geralmente caem durante o sono REM (Rapid Eye Movement, fase relacionada à consolidação de memórias) em roedores e também em humanos. No entanto, tanto animais como pessoas com TEPT costumam apresentar taxas altas da substância enquanto dormem. Dessa forma, fármacos que tenham como alvo a noradrenalina representam uma esperança para “curar sintomas de estresse pós-traumático enquanto o paciente dorme”, considera Gina.

Em outro estudo, a neurocientista Asya Rolls, da Universidade Stanford, conseguiu interferir na memória de ratos durante o sono e reduzir a intensidade de algumas associações traumáticas. Primeiro, Asya e sua equipe condicionaram os animais a ter medo quando sentiam cheiro de jasmim, relacionando o odor a sessões de choques elétricos. Em seguida, quando os bichos dormiram, os pesquisadores liberaram essência de jasmim no ar. Porém, para prevenir que o cheiro reativasse e encorpasse memórias ruins (um processo que requer proteínas estruturais), deram aos animais drogas que bloquearam a produção dessas moléculas em uma área do cérebro com função-chave no processamento de lembranças de medo. Quando os ratos acordaram, não reagiram de maneira que demonstrasse receio ou ansiedade, o que, segundo Asya, sugere que as associações traumáticas foram “apagadas” com sucesso. 

Esses resultados abrem perspectivas para criar intervenções direcionadas a experiências estressantes relacionadas a sons e a cheiros específicos. Os tratamentos atuais de TEPT são baseados em terapia de exposição. O paciente é gradualmente confrontado com situações aflitivas e estimulado a criar novas associações, de conforto e segurança. A esperança é que a neurociência possa, em breve, ajudar o cérebro a se recuperar de traumas – de preferência, dormindo.


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Sono, sonhos e criatividade

sábado, 11 de maio de 2013

ONDE ESTÁ O AMOR

Nós nos apertamos muito na vida, às vezes durante longos trechos do caminho, às vezes durante o caminho todo, porque queremos ser amados. Esticamos a corda, fazemos escolhas equivocadas, abrimos brecha para as doenças, mentimos para nós mesmos, mentimos para os outros, criamos as mais estranhas confusões, porque queremos ser amados. Passamos ao largo dos sentimentos mais viçosos, das verdades mais intensas, das belezas mais risonhas, porque queremos ser amados. Erguemos muros altíssimos, amordaçamos as nossas sementes, engaiolamos os nossos pássaros, tentamos conter os nossos rios, porque queremos ser amados.

Ai, porque queremos ser amados, por mais estranho que pareça, às vezes fechamos o coração ou abrimos só um pedacinho dele e, ainda assim, lá na porta dos fundos. Sustentamos enganos, vestimos roupas que não nos servem, fazemos pactos com a escassez, ignoramos prazeres, agüentamos privações, porque queremos ser amados. Mantemos a ilusão de que alguém ou alguma coisa trará, enfim, a chave que abre o nosso cárcere, e, enquanto o tal carcereiro não aparece, morremos por falta de alegria, um pouquinho a cada instante, porque queremos ser amados. Apagamos sóis, em vez de acendê-los. Soterramos sonhos, em vez de cultivá-los. Desenhamos uma história que nada tem a ver com a gente. Deixamos crescer a erva daninha até o ponto em que ela oculta as flores mais lindas e mais nossas, porque queremos ser amados.

Até que num belo momento, depois de muito cansaço, depois de muito doer, depois de muita neblina, depois de muita busca, sobretudo, a gente descobre, contente que nem criança diante de novidade, onde o amor estava o tempo todo. Onde estava a chave. Onde estava o alimento. Maravilhados, começamos a cuidar de nós mesmos. Começamos a dedicar carinho e delicadeza a nós mesmos, esses que pensávamos que podiam vir somente dos outros. Começamos a ser a mãe e o pai de nós mesmos, e também os filhos, os enamorados, os benfazejos. Descobrimos que o interruptor que faz a vida acender esteve o tempo inteiro no nosso próprio coração.

Começamos a caminhar a partir da fonte inesgotável de amor que já nos habita. Que é a nossa essência. Que independe de intermediários, que são preciosos, sim, mas para enriquecer a nossa passagem pelo mundo. Para trocarmos aprendizado e entusiasmo. Para brincarmos juntos. Para partilharmos encantos. Para partilharmos também as dores que, invariavelmente, nos visitam. Começamos a caminhar, enfim, a partir do amor que é essa matéria-prima disponível em nós, que permeia tudo o que podemos criar, agora, com a nossa existência. Começamos a querer somar com a nossa contribuição, seja lá qual for, porque quando a gente começa a se amar começa também a sentir que dar é o primeiro jeito de recebimento. A vontade de fazer o amor circular é tão genuína, é tão natural, que a gente quer molhar a vida inteira nesse oceano amoroso, sabedores de que somos parte dele.

Continuamos a querer ser amados, é claro. Amados com o charme que flui, com o olhar que abençoa, com a atenção que enleva. Mas o amor que vem dos outros não é mais salvação, a única chance de felicidade, o tapa-buracos, o paliativo para a carência que o afastamento de nós mesmos nos provoca. Não é mais remédio, fórmula, chá milagroso ou coisa que o valha. É, antes de tudo, um espelho que reflete a nossa própria capacidade de viver um amor que ri. Um amor que canta. Um amor que é gentil. Um amor que é paciente. Um amor que cuida, porque o cuidado é da natureza dele. Um amor que é grande e que abraça com calor e sem pressa. Um amor que, generoso, nos respeita e nos acolhe, com tranqüilidade, do jeitinho que a gente é. Um amor que vale a pena. Com frescor, com alegria, às vezes com tristeza e dificuldade também. Mas, principalmente, um amor que não sabe o que é esforço.

Amor cria espaço e beleza, é só a gente olhar para o universo. Quem entende bem dessa história de aperto é o medo, esse nosso carcereiro sabotador.

A cada gesto, a cada palavra, a cada silêncio, precisamos nos perguntar se estamos criando mais espaço ou apenas mais aperto na nossa vida. Se quem está em cena é o nosso amor ou o nosso carcereiro.

Por: Ana Jácomo