domingo, 25 de agosto de 2013

Depressão vs Melancolia: Algumas Notas

Conceitos como tristeza, depressão, melancolia encontram-se intrincados no seio da nossa comunicação, presentes no dia-a-dia, vulgarmente confundidos ou reduzidos ao mesmo.

A tristeza aparece quando se perde algo ou alguém a que se estava fortemente ligado. Contudo, quando esse algo que se perdeu era já era visto como incerto e apenas mantido por uma crença relacionada a um sentimento de onipotência, a tristeza é sentida, mas negada a realidade da perda – ou, mais precisamente, negado o sentimento de perda. E assim se instala a depressão.

A depressão é, assim, a negação do sentimento de perda; está-se triste sem saber porquê.

Quando se perdeu alguém de quem se estava dependente, mas cuja dependência era sentida como uma inferioridade pessoal, da mesma forma a tristeza é sentida, mas negado o sentimento de perda. E, pela mesma razão, se instala um quadro depressivo.

O depressivo é um indivíduo com uma deficiência na autoestima (no narcisismo para ser mais correto). A sua representação e o seu valor próprio é confirmado e avaliado pelos outros, sendo estes o espelho da sua imagem,os que constroem a sua representação e provocam admiração e o dito amor.

Já a depressividade não é idêntica à personalidade depressiva corrente; precisamente, pelos sintomas comuns da última (quebra de energia, falta de esperança no Outro, no mundo). Pelo contrário, os doentes têm energia, mas é uma energia de esforço. São pessoas com uma forte tendência para idealizar os outros (mergulharem na fantasia narcísica). Sobrevivem da idealização dos outros, idolatrando o ente amado, que adoram e veneram (numa posição submissa e algo penosa). Não esperam, nem obtêm, em significativa medida, a retribuição devida e desejável. Agradecem o simples facto de poderem amar. São felizes fazendo os outros felizes; felizes – à sua maneira, abdicando do desejo próprio que quase ignoram. Vivem, pois, num amor não correspondido. O que, necessariamente, é deprimente. Mas não sentem, não vivem a depressão.

No Eu destas pessoas padece um vazio existencial que necessita de um amor para o seu preenchimento estrutural, estruturado e estruturante. Mas o sujeito, o Eu, ignora essa necessidade; e, consequentemente, não procura satisfazê-la. Como resultado da insatisfação existente mas ignorada, gera-se uma raiva imensa apenas sentida como tensão, desconforto ou irritabilidade – ou nem sequer sentida – e quase sempre não reconhecida, não ligada a eventos, pessoas ou propósitos.

São extremamente inseguros e muito dependentes, embora a dependência seja pouco notada, porque encoberta pelos comportamentos de cuidar dos outros.

Em suma, «o melancólico não sabe o que lhe falta, mas sabe que lhe falta algo (um amor envolvente, sabemo-lo hoje em dia). O pré-depressivo não sabe sequer que lhe falta algo – apenas ficou, quando ficou, a sensação corporal vaga de um mal-estar indefinido.» (Matos, A.C.)


por Claudio Vieira Sem com

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Cérebro Psicopata


Recentes resultados de pesquisas em neurociências começam a lançar algumas luzes no que se refere à psicopatia. A falta de empatia, a falta da culpa, as emoções superficiais, a mentira compulsória e manipuladora, a crueldade e o sangue frio são características de todos os psicopatas.

Em alguns estudos os psicopatas, diferente das pessoas que não têm esse Transtorno de Personalidade, respondiam à estímulos carregados emocionalmente da mesma forma que respondiam a estímulos neutros. Isso demonstra que os psicopatas são destituídos de afetos, em várias áreas. Em outros estudos, se observou que os psicopatas não reagem com alterações fisiológicas a mudanças surpreendentes no ambiente. Pessoas normais reagem fisiologicamente diante de um fato surpreendente podendo piscar, por exemplo. Tais resultados podem sugerir que os psicopatas causam dor sem sentirem-se incômodos ou constrangidos, ao contrário, parecem fazê-lo de boa vontade e até mesmo com certo prazer. Geralmente eles sabem que estão ferindo por causa de um sentimento intelectual abstrato (intenção), já que lhes falta a empatia para compreender o efeito do que causam naqueles a quem agridem.

Um exemplo bem claro desse comportamento sádico, pode ser observado no caso Jason, publicado no ano de 2000 (veja seção Arquivo/Narcisismo). Recentes estudos feitos com imagens do cérebro, através de aparelhos modernos como Ressonância Magnética, sugerem, segundo Hare, uma possível base neurofisiológica para o fracasso da significação emocional nos indivíduos com esse tipo de transtorno. No cérebro dos psicopatas, os mecanismos que normalmente afetam os processos cognitivos podem ser ineficientes ou inoperantes.

A neurociência tem demonstrado que a relação emocional da mãe com o bebê, podem causar danos neurológicos importantes e talvez, a psicopatia, seja um desses danos. Da mesma forma que uma alteração física causa modificações no comportamento, uma modificação de comportamento, pode causar alterações fisiológicas importantes. Esse é outro aspecto sob observação e parece muito promissor.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

De novo, de novo e de novo...

Quando conteúdos recalcados irrompem como sintoma, sobrevém o sofrimento, mas também o alívio

agosto de 2013
 
Maria Maura Fadel
 


Em seu novo livro, o psicanalista e psiquiatra J.-D. Nasio parte de um questionamento comum,  aparentemente comum, que a maioria das pessoas já fez em algum momento. A banalidade, porém, é mesmo só aparente: o tema é profundo, relacionado à constituição do sujeito e da subjetividade, ao determinismo psíquico – e arraigados sofrimentos que levam as pessoas a acreditar que são vítimas de um princípio “demoníaco”, como escreveu Sigmund Freud. Por que repetimos os mesmo erros parte da noção de inconsciente, essa “força soberana que nos confere identidade social e nos impele a escolher a mulher ou o homem com quem compartilhamos a vida, a escolher a profissão que exercemos, a cidade ou a casa onde moramos – escolhas que julgamos deliberadas ou fortuitas ao passo que, na verdade, nos foram sutilmente ditadas pelo inconsciente”. É essa instância que nos impele a repetir tanto o que nos faz bem, de forma sadia, quanto comportamentos que nos prejudicam.

Nasio reflete sobre essa ambivalência psíquica tomando como ponto de partida casos que fazem parte de sua experiência clínica. Destaca três leis que regem o processo repetitivo:
1. lei do mesmo e do diferente (algo jamais se repete de maneira absolutamente idêntica, aparece sempre um pouco diverso); 
2. lei da alternância da presença e da ausência (a repetição não acontece todo o tempo); 
3. lei da intervenção de um observador que enumera a repetição (só existe o fenômeno porque o contabilizamos, nomeamos e apontamos o número de vezes que ele se reproduz).

Embora muitos se deem conta do quanto são presas fáceis de cenários de fracasso que se reeditam levemente modificados, nem toda repetição é, necessariamente, prejudicial. Um dos pontos destacados no livro é seu efeito benéfico, quando associada à autopreservação, ao desenvolvimento e à formação da própria identidade – e sem caráter compulsivo. Segundo Nasio, que durante 30 anos lecionou na Universidade de Paris VII, do ponto de vista psíquico  é possível destacar três pontos de retorno ao próprio passado: por meio da consciência (marcada por recordações na maioria das vezes visuais, mas também táteis, gustativas ou olfativas ao que esteve esquecido, como Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust); em atos sadios (retorno, por meio dos comportamentos, a um passado conturbado e recalcado); e em atos patológicos (retorno compulsivo a um passado traumático e recalcado por meio de comportamentos). As duas primeiras situações são qualificadas como sadias. A última, entretanto, tem caráter patológico.

É justamente a volta ao trauma que incomoda as pessoas que buscam atendimento psicológico ao perceberem, no presente, a eclosão do sintoma ou da ação impulsiva, também chamada de passagem ao ato. Sigmund Freud escreveu: “Os abalos inconscientes não querem ser rememorados, mas aspiram a reproduzir-se; o doente quer agir suas paixões”. Nasio se encarregou dos grifos, ao definir a repetição patológica como uma série de pelo menos três ocorrências, na qual “uma emoção infantil, violenta, forcluída e recalcada aparece, desaparece, reaparece e reaparece novamente alguns anos mais tarde, na idade adulta, sob a forma de uma experiência perturbadora cujos paradigmas são o sintoma e a passagem ao ato”. O autor destaca ainda duas formas básicas de repetição patológica: temporal e tópica. A temporal é facilmente detectada e o paciente sente que “faz parte dela”, é protagonista do sintoma, volta e meia se vê tragado por situações nas quais reconhece o sintoma.  Já a repetição tópica ou espacial não é reconhecida pela pessoa, mas deduzida pelo analista.

Em Além do princípio do prazer, de 1920, Freud escreve que a criança nunca se cansa de repetir uma brincadeira ou ouvir uma história, é o adulto que lhe impõe o limite. Fica claro para qualquer um que tenha vivido diretamente ou presenciado esse tipo de situação que o prazer provocado pela repetição pode estar associado à compulsão pela gratificação. Mas quando conteúdos recalcados irrompem subitamente, transmutados em sintoma, o que sobrevém é o sofrimento. Ao mesmo tempo, porém, esse movimento permite uma descarga de tensão que, em algum nível, proporciona alívio.

Para dar conta dessa aparente contradição, Nasio recorre à teoria lacaniana, segundo a qual o gozo oferece dor e prazer, simultaneamente. O autor chama a atenção para o fato de que somos tanto atores quanto espectadores das repetições. No momento em que retoma uma emoção traumática, a pessoa em análise é, simultaneamente, aquela que revive o trauma e que se observa revivendo essa experiência – e aí está uma porta possível para a ressignificação da repetição, da tentativa de controlar o que foi vivido passivamente. É um aspecto do que Nasio chama de “revivescência”, que se constitui ao longo de várias sessões psicanalíticas, indo muito além da rememoração. O autor escreve: “Convém ao mesmo tempo sentir e ter consciência de sentir, dissociar-se entre aquele que revive o trauma e aquele que se vê revivendo o trauma”. Um processo árduo, delicado e em geral doloroso – mas felizmente possível e libertador.

Leia mais:

"Massacre silencioso", resenha de Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex

Desejos (que tentamos guardar) longe da consciência