segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sonho Lúcido: Para aqueles que já viajam sem sair do lugar

por em 21 de abr de 2012 às 20:37

Há um espaço muito possível, do qual o homem ainda pouco explorou. Um universo onde o seu pensamento plana e a lei da gravidade transborda possibilidades. Um terreno intrínseco da mente, situado numa incalculável dimensão. Esse desejado lugar não só existe como também pode ser controlado. Estamos falando da experiência onírica que vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo: a do sonho lúcido.


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Todo homem vivo sonha. Não importa idade, tamanho, raça, credo ou país de origem. Sonha, inclusive, aquele que ainda nem veio ao mundo e está à espera, na barriga da mãe - pesquisas feitas por ultrassom já conseguem revelar incrível beleza. O sonho é a constante da vida, e isso explica um pouco os motivos pelo qual a busca para desvendá-lo seja tão grande e ainda assim, insaciável.
A realidade que presenciamos é para se apalpar; a do aqui e agora. Aonde tudo é percebido e por demais sólido. Uma realidade onde o chão é duro e os objetos ganham caráter absoluto, bastando apenas olhá-los com o mínimo de atenção necessária. Longe dessa condição terrena, porém, existe uma brecha em que as preocupações cotidianas passam sutis e silenciosas.

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Sempre que adormecemos - e isso vale dos pequenos cochilos até as sedentárias tardes de domingo - participamos de outra cena, tão corriqueira e normal quanto às testemunhadas no dia-a-dia. Sem notarmos, migramos num passe de mágica para outra dimensão e pronto, tudo simplesmente aparece. Como efeito da troca, passamos de diretores à meros receptores do ambiente e seu jogo de imagens. Viramos quase, digamos; coadjuvantes - para não dizer platéia.
Entrelaçar esses dois universos categoricamente distintos - o físico e material, com o onírico e fantástico - é tão natural que, de fato, nem sentimos a transição do primeiro para o segundo. E é por conta desse detalhe tão autêntico, que a hipótese de questioná-lo nunca nos passou pela cabeça.

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Ante toda vertente de pensamento surgida em torno dos sonhos (sendo ela de origem freudiana ou junguiana, nas versões modernas) há uma que vem ganhando cada vez mais adeptos, por ser, no mínimo (até para os menos interessados), bastante curiosa.
É a experiência de se obter lucidez durante certo período do sono, denominada sonho lúcido. Uma prática que sempre existiu na humanidade (por laços da cultura tibetana), mas que somente nas três ultimas décadas começou a ganhar sua devida atenção.
O sonho lúcido é a fantástica arte de sonhar sabendo perfeitamente que está sonhando, ou seja, ter completa consciência para agir de forma autônoma no seu próprio inconsciente. Despertando - e se espreguiçando, se assim quiser - sem necessariamente ter que acordar e levantar da cama.

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No filme Inception (2010) essa constatação é demonstrada por Cobb (Leonardo DiCaprio), quando ele pede para Ariadne (Ellen Page) se lembrar de como haviam chegado ao restaurante. Sonhos não possuem ordem cronológica.
Esse é o chamado estado de claridade mental, que surgiu como termo e tese através do escritor e psicopatologista holandês, Frederick Willem van Eeden (1860 – 1932), pouco antes da Primeira Guerra Mundial. A ideia, na época, não ganhou holofotes e muito menos foi abraçada por psicólogos mais ortodoxos; que não enxergavam seu fundamento e nem sequer um sentido que não fosse obscuro para se levar a cabo o conhecimento.
Mesmo assim, os artigos do autor e anotações de mais de trezentos sonhos lúcidos, felizmente não caíram no limbo - como era de se esperar. Dentre os poucos interessados, estava aquele que seria o principal condutor da atualidade no que se refere à compreensão desse tipo de sonho: o jovem americano Stephen Laberge, hoje com 65 anos e autoridade no assunto.
Laberge, sabendo o potencial desse vasto universo, não perdeu tempo e se aprofundou no assunto, inicialmente tendo-o como foco central do seu Ph.D. O cuidadoso trabalho rendeu mais tarde, no ano de 1985, a criação da sua consistente obra, titulada como “Lucid Dreaming”.

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No livro, ele transmite o propósito de se ter um sonho lúcido e a gama de benefícios que essa experiência pode oferecer ao sonhador. Além de narrar heroicamente a sua própria trajetória para conquistar espaço na sociedade científica, provando de vez a ocorrência da lucidez por vias do estágio do sono chamado REM (movimento rápido dos olhos).
Já se sabia na época que a fase REM é a de maior atividade dentre as etapas do sono, na qual o indivíduo semicerra as pálpebras e movimenta rapidamente seu globo ocular. É nessa fase, também, que os sonhos se tornam mais nítidos.

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O sono REM é o "sono dos sonhos", onde todo o corpo paralisa e as imagens ficam extremamente vivas.

Tomando posse desse conhecimento - que ao contrário do sonho lúcido tinha aceitação unânime - Laberge solicitou um dos melhores laboratórios da Universidade de Standford (EUA), em 1977. E com um polígrafo a sua disposição, pediu para que o pesquisador e entusiasta do estudo, Lynn Nagel, fosse o seu braço direito durante a saga clínica: enquanto Laberge estivesse dormindo, servindo-se de “cobaia” para o teste, Nagel tinha a tarefa de vigiá-lo durante a noite e verificar atentamente os seus olhos fechados.
Os dois haviam combinado previamente que, se Laberge entrasse no sonho lúcido, devia se esforçar à olhar para os lados, imprimindo largos movimentos verticais ou horizontais. Tal ação - acreditavam - poderia se refletir igualmente no olhos adormecidos que Nagel observava; permitindo que esse, por sua vez, pudesse confirmar o sinal enviado quando o amigo acordasse.
Laberge conseguiu o desejado e o que antes era considerado suposição, se confirmou com o evidente registro que o polígrafo mostrou. Claro, depois de diversas tentativas e mais experimentos com outras pessoas, somente em 1981 a novidade foi totalmente aceita, demonstrando para os mais descrentes e resolutos, que o impossível - para eles - já não era tão impossível assim. Em um dos capítulos que escreveu depois, Laberge compartilha sua visão referente às indigestas negações do sonho lúcido que teve de enfrentar durante esse período de quase três anos de imersão - “Lamentavelmente, na ciência nem sempre essa abertura [a novas ideias] é a regra: aliás, também não é muito diferente em qualquer outro campo de esforços humanos”.

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Convencimentos a parte, logo depois da legitimidade atribuída ao sonho lúcido, não faltou early adopters dispostos a contribuir com a divulgação e o aprimoramento da prática. Os exploradores da mente foram nomeados pelo próprio Stephen Laberge como: onironautas.
A palavra onironauta tem raíz na etimologia grega. Pois, segundo os nossos escritos, a primeira consideração dessa espécie de lucidez veio através de Aristóteles (384 a.C – 322 a.C), no seu “Tratado Sobre os Sonhos”. O filósofo deixa claro numa passagem, o lapso de desconfiança que por ora abate o sonhador, pois o “seu consciente lhe diz que aquilo não passa de um sonho”.
O significado, então, vem de oniro (sonho) e náute (marinheiro, ou navegante); daí o termo para conceituar o empenho de quem busca desbravar as ondas do “outro lado”.

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Qualquer pessoa pode ter um sonho lúcido, embora nem todos consigam em nível elevado. Há uma distância entre estar consciente sem interferir em nada (que já é um avanço) e estar consciente podendo usufruir de total controle das coisas.
No mais alto grau, você pode decidir tranquilamente quem gostaria de encontrar (celebridades, parentes que já se foram, amigos distantes, personagens de livros); os locais e paisagens que mais desejaria desfrutar (aurora boreal, a lua, sua casa de infância, woodstock, as ruas da sua cidade cobertas de grama fofa) e fazer coisas que componham o extraordinário (voar por entre todas as nuvens, aumentar dez vezes seu tamanho, atravessar paredes, respirar embaixo d’água, ser integrante dos Beatles).
Poderia escrever o máximo de exemplos e ainda seria mínimo. Nos sonhos não há o que não se possa fazer. As proporções são tamanhas e equivalem apenas a sua capacidade de criar para si. 

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Normalmente o primeiro impulso do sonhador é o de querer voar.

Contudo, existem caminhos que viabilizam esse alcance. São os exercícios praticados por meio de técnicas de indução do sonho lúcido, que consistem em nada mais do que a preparação do cérebro para a atividade noturna. A mais famosa se chama MILD (indução mnemônica dos sonhos), também desenvolvida por Laberge, e que sugere ao sonhador estabelecer internamente uma conexão entre “quando” se quer e “o que” se quer. O “quando”, deve ser “quando estiver sonhando” e “o que”, vai depender das asas que a sua imaginação conceder. Essa técnica, segundo Laberge, deve ser aplicada durante aquele despertar repentino no meio da noite. Para isso, deve se ter em mente um objetivo intencionalmente traçado.
Caso o MILD não atenda as suas expectativas, não há problemas. Na cartilha de “fórmulas” incluem outros exercícios tão eficazes quanto: o método do Dr. Tholey (1937-1998), por exemplo, prevê que, questionar a a realidade constantemente no dia-a-dia, seja a melhor alternativa para naturalmente ficar lúcido nos sonhos. O que significa não apenas uma rápida e singela dúvida das coisas, mas sim, ter de olhar tudo - carros, objetos, pessoas - ao seu redor; e estranhar como nunca havia estranhado antes (ótima oportunidade para assistir certos eventos indesejados).

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Para os fãs do filme O Show Truman (1998), o método Tholey é infalível.

E outras diversas variantes, que se distribuem em siglas e mais siglas: WILD (sonho lúcido induzido acordado), WBTB (acordar e voltar para a cama), DEILD (encadeamento de sonho) e CAT (técnica de ajuste de ciclo).
Não sendo o suficiente, a boa e velha anotação diária num caderno também surte relativo efeito. Pois assim, o seu cérebro trata de ir se adaptando aos poucos à nova mensagem que está recebendo, e automaticamente se torna mais flexível à memórias do gênero. Ele sabe que você quer se lembrar, e isso o deixa mais propenso a identificar os sonhos no momento em que eles ocorrem. Na linguagem popular, ele fica mais “malandro” e sabe que alguma coisa está fora da ordem habitual - como, de repente, um cavalo falar.
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"Quero libertar sua mente, Neo. Mas só posso te mostrar a porta. Você tem de atravessá-la" - Cena clássica do treinamento que Morpheus dá a Neo, em Matrix (1999). Seria o equivalente do preparo exigido para ser um onironauta.

Além do intuito puro da diversão que o sonho lúcido pode proporcionar, outros benefícios - dentre os que ainda estão sendo investigados - foram atribuídos por especialistas e psicólogos da área, como por exemplo, o de auxiliar pacientes a lidarem com memórias desagradáveis - na terapia contra desordem pós-traumática – ou mesmo o aperfeiçoamento de tarefas, executando-as enquanto estiver dormindo.
Também é considerado - e não poderia deixar ser - como elemento chave para o autoconhecimento, devido o contato direto e extremamente profundo com a psique humana e seu interior. Carl Gustav Jung (1875 – 1961), mesmo não sendo referência quanto à lucidez na vida onírica, já sabia disso como ninguém – do poder transcendental dos sonhos - com a ideia do inconsciente coletivo e depois com a psicologia transpessoal.
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 “Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda” - Jung, o primogênito de Freud, segundo o próprio pai da psicanálise

Talvez a experiência de se ter razão num mundo essencialmente subjetivo, soe contraditório em ouvidos mais objetivos. Mas, o que é a vida se não um eterno paradoxo?
O que antes era inacessível a vagos cinco sentidos, felizmente permanece. Pois só assim, as janelas para o surpreendente se abrem. E o melhor, quando isso acontece: apenas você pode entrar.

Bons sonhos!

Notas: Quer saber mais? Visite o site do Instituto do Sonho Lúcido http://www.lucidity.com/ ou também o site brasileiro http://www.sonhoslucidos.com/

domingo, 22 de abril de 2012

Psicologia Transpessoal - Teorias e conceitos


Carl Gustav Jung

        Carl Gustav Jung (1875-1961) residiu durante toda a sua vida na Suíça. Estudou psiquiatria com Eugen Bleuler no Hospital Mental Burgholzii, em Zurique. Ele estava fortemente envolvido com Freud e com o movimento psicanalítico de 1906 a 1914, quando renunciou à presidência da Associação Psicanalítica Internacional. Após uma "doença criativa" que durou de 1914 a 1918, Jung emergiu como um defensor da introspecção ativa como um meio para a mudança intrapsíquica. Embora rejeitasse a noção de Freud de libido como energia sexual e o complexo de Édipo como um estágio desenvolvimental universal, ele acreditava não apenas na ação inconsciente, mas em um inconsciente coletivo partilhado. Em sua própria tipologia, um introvertido intuitivo, Jung não estava interessado nos aspectos práticos do viver no mundo. Seu foco foi sobre individuação através de tornar-se ciente do inconsciente. Jung fundou uma escola de psicoterapia e psicologia que ele denominou psicologia analítica.
         
TEORIA DA PERSONALIDADE. Jung desenvolveu uma elaborada metapsicologia. Seu construto do aparelho psíquico diferia da topologia freudiana de ego, superego, id e ideal do ego, diagramada para fins de comparação na Figura 1. A Figura 2 apresenta a visão de Jung do aparelho psíquico. Abaixo de uma margem externa de consciência está o inconsciente pessoal, contendo os complexos. Contidos dentro do inconsciente pessoal e conectados aos complexos estão os arquétipos, os elementos do self, que, por sua vez, conectam-se a superfície da personalidade como o ego.
Figura 1 - A topologia freudiana do aparelho psíquico
SE = Superego
CS= Consciente
UCS= Inconsciente
        Complexos. Os complexos são grupos de idéias inconscientes associadas a eventos ou experiências particulares emocionalmente coloridos. Jung os deduziu a partir de seus estudos iniciais de associação de palavras quando ele observou que determinadas palavras provocam reações intensas ou produzem menos reação do que o esperado. Os complexos são construídos em torno de estruturas psíquicas solidamente interligadas conhecidas como arquétipos, que são explicadas adiante.

         Os complexos são também reforçados por eventos ambientais e por atenção ou desatenção seletiva e são, portanto, autoperpetuantes. Eles são dotados de energia psíquica a partir de seu tom afetivo - positivo, negativo, suave ou forte. Quanto mais intenso o complexo, maior a emoção, imagens mentais e tendência à ação. Os complexos são freqüentemente estimulados por interações com outros. Um complexo com o pai pode ser estimulado por uma pessoa que simboliza um pai (por ex., um amigo mais velho) ou por um estímulo como a música ou arte que evoca memórias do pai. O complexo, anteriormente inativo no inconsciente, vem para o consciente e tende a dominar a consciência e deslocar outros complexos, que então mergulham em inconsciência. Emoções, imagens, memórias e idéias relacionadas ao pai vem à percepção e são expressas durante este período, denominado "baixando o nível de consciência." À medida que os estímulos relacionados ao pai diminuem, o mesmo pode acontecer com o complexo com o pai, incluindo o que foi pensado, sentido e expressado durante a sua ascendência.
Figura 2 - O aparelho psíquico jungiano ( De A Stevens: On Jung, p 29. Routledge, Londres, 1990. Usado com permissão)

C= Complexo
A= Arquétipo

        Alguns complexos são conscientes, bem desenvolvidos e egossintônicos; outros são menos conscientes, maldesenvolvidos e egodistônicos. Os últimos são projetados sobre o ambiente, especialmente pelo processo psíquico inativo das crianças; a partir deste processo, processos projetivos e introjetivos evoluem. Uma pessoa pode introjetar e identificar-se com um complexo que foi projetado por uma outra pessoa. Deste modo, os terapeutas podem tornar-se psicologicamente infectados por seus pacientes. Pode-se também projetar um complexo que não está integrado em si mesmo sobre uma outra pessoa e então desenvolver um relacionamento com o complexo projetado. A pessoa pode imaginar um ambiente interpessoal carregado com complexos projetados potencialmente disponíveis para introjeção, deste modo oferecendo um potencial interminável para mutação psíquica em um campo interpessoal.

        Um outro aspecto importante dos complexos é a sua bipolaridade. Cada complexo tem um pólo positivo e um pólo ne projetado sobre uma outra pessoa, que, por sua vez, age sobre ele em um relacionamento. Deste modo, a teoria dos complexos é uma teoria de relacionamentos interpessoais, bem como de relacionamentos intrapsíquicos.

        Na teoria junguiana, o ego é também um complexo. Ele serve à mesma função que o ego freudiano, controlar a vida consciente e ligar o mundo intrapsíquico ao mundo externo. Os outros complexos que compõem o processo psíquico podem alinhar-se com ou opor-se ao ego. Por exemplo, complexos primitivos emocionalmente carregados têm uma grande tendência a tornar-se autônomos e podem comportar-se como personalidades parciais que se opõem ou controlam o ego. Estas personalidades aparecem como imagens em sonhos, como alucinações e como personalidades separadas em casos de transtorno de múltipla personalidade. Eles também aparecem em sessões espíritas quando médiuns apresentam as assim chamadas personalidades dos mortos. Para Jung, este fenômeno também explicava o animismo e os estados de possessão.

         Arquétipos. Complexos estão conectados a estruturas profundamente embutidas no aparelho psíquico, os arquétipos (Figura 2). Os complexos, o aspecto superficial do contínuo complexo-arquétipo, estão relacionados a eventos, sentimentos e memórias de vidas individuais. Eles são meios pelos quais os arquétipos expressam-se no processo psíquico pessoal. Os arquétipos são capacidades herdadas de iniciar e realizar comportamentos típicos de todos os seres humanos, independentemente de raça ou cultura, tais como alimentar e aceitar alimentação, tornar-se agressivo e lidar com agressão de outros. Estas predisposições são análogas à organização do córtex cerebral na lenta caminhada para a percepção visual de estímulos auditivos que se torna a capacidade para ver e ouvir, mas que especificamente requer estímulo para o seu desenvolvimento. Assim como a visão não pode desenvolver-se sem a carga visual durante estágios fisiologicamente decisivos, do mesmo modo os arquétipos requerem estimulação interativa para a sua elaboração em complexos. Deste modo, o complexo psíquico do bebê humano não é uma energia amorfa aguardando organização pelo ambiente. Ela é, ao invés disso, um complexo e organizado conjunto de potenciais cujo preenchimento e expressão dependem dos estímulos ambientais apropriados. Há tantos arquétipos quanto há situações humanas prototípicas.

         O arquétipo-complexo mãe ilustra a inter-relação entre complexo e arquétipo. O complexo mãe é baseado em experiências com mães ou mães substitutas - suas atitudes, personalidades e relacionamento com a pessoa. O arquétipo mãe é encontrado em sonhos ou fantasias freqüentemente como uma mulher imensa ou um animal com muitos seios. O tema principal do animal com muitos seios encontrado em muitas culturas é o de nutridora ilimitada.


             Inconsciente. Em contraste com o inconsciente de Freud (Figura 1), o inconsciente jungiano tem duas camadas, a camada mais superficial sendo o inconsciente pessoal e a camada mais profunda sendo o inconsciente coletivo. Os complexos existem no inconsciente pessoal, os arquétipos no inconsciente coletivo ou complexo psíquico. O inconsciente pessoal é o equivalente do inconsciente freudiano, um repositório do que foi reprimido. O inconsciente coletivo é o resíduo do que foi aprendido na evolução da humanidade e passado ancestral, de modo bastante semelhante a como o ácido desoxirribonucléico (DNA) é um agregado do passado. Nesta porção do complexo psíquico, residem os instintos, o potencial para criatividade e a herança espiritual.

         O complexo psíquico, assim como todos os sistemas vivos, tenta permanecer em equilíbrio. O termo de Jung para homeostase na relação da vida consciente com a inconsciente foi a "lei da compensação". Para qualquer atitude consciente ou experiência que é excessivamente intensa, há uma compensação inconsciente. Uma pessoa experimentando negligência pode fantasiar ou sonhar com uma mãe imensa de muitos seios. Ao interpretar sonhos, Jung perguntava a si mesmo por qual atitude consciente o sonho compensara.

         Símbolos. Embora Jung aceitasse determinados símbolos como universais, ele sugeriu que, ao lidar com pacientes, o terapeuta deveria ver os símbolos como expressões de conteúdo ainda não conscientemente reconhecidas ou conceitualmente formuladas. Um objeto cilíndrico alto pode simbolizar um pênis, mas pode igualmente bem representar criatividade ou cura. Os símbolos são, freqüentemente, tentativas de unir imagens do inconsciente coletivo com o inconsciente pessoal e atingir um equilíbrio entre os dois. Um objeto cilíndrico alto que simboliza um pênis no inconsciente pessoal pode simbolizar o princípio fálico da criatividade ou fertilidade no inconsciente coletivo.

         Estrutura da personalidade. No centro da personalidade consciente está o complexo denominado ego. Diversos complexos universais servem ao ego. A persona (nomeada como a máscara usada pelos atores gregos antigos), a personalidade pública, intermedia entre o ego e o mundo real. A sombra, a imagem inversa da persona, contém aqueles traços inaceitáveis para a persona, quer eles sejam positivos, quer negativos. Uma persona corajosa, por exemplo, tem a sua sombra temerosa. O arquétipo da sombra é o inimigo ou o intruso temido. A anima é o depósito de todas as experiências de mulher na herança psíquica de um homem; o animus é o depósito de todas as experiências de homem na herança psíquica de uma mulher. A anima ou o animus conecta o ego ao mundo interno do complexo psíquico e é projetado sobre outros em relacionamentos cotidianos ou íntimos. Quando conectado à sombra, um homem, por exemplo, pode ver os atributos de mulher como indesejáveis e pode experimentar culpa ao encontrar estas qualidades em si próprio.

         SELF. O self é o arquétipo do ego; ele é o potencial inato para a integridade, um princípio ordenador inconsciente direcionando a vida psíquica geral que dá lugar ao ego, faz acordos com e é parcialmente moldado pela realidade externa. Na metapsicologia jungiana, o inconsciente dá lugar à integração, ordem e individuação. O self surge do inconsciente em sonhos, fantasias e estados de consciência alterada para dar direção. Na primeira metade da vida, o ego tenta identificar-se com o self e apropriar o poder do self a serviço do crescimento e diferenciação do ego. Durante este tempo, o ego pode tornar-se inflado com um sentimento irrealista de poder - a arrogância da juventude. Se cortado do self, o ego pode ser alienado e deprimido.

         INDIVIDUAÇÃO. Na segunda metade da vida, o ego começa a servir mais ao self do que ao domínio consciente da vida. Jung chamou este processo do desenvolvimento de "individuação" o impulso para uma pessoa tanto para tornar-se singular como para preencher as propensões espirituais comuns a toda a humanidade. Freqüentemente o processo requer a retícula de identidades anteriores e definições convencionais de sucesso e busca novos caminhos.

        A mudança freqüentemente exerce o efeito paradoxal de conduzir a relacionamentos mais amplos e mais maduros e a maior criatividade.

         Tipos psicológicos. A teoria de Jung de tipos psicológicos possui três eixos (Figura 3). A polaridade extroversão-introversão diz respeito ao relacionamento de objeto. Os extrovertidos são orientados aos outros e ao mundo da consciência. Sua energia flui para fora primeiro, então para dentro. Os introvertidos são orientados para os seus mundos internos, sua energia fluindo primeiro para dentro e então para a realidade externa. Os introvertidos podem, portanto, ser vistos como egoístas e inadaptáveis porque eles prestam atenção primeiro aos seus mundos internos e então determinam como o mundo externo pode encaixá-los.



            Figura 3 - Tipos psicológicos (possui três eixos)

      A polaridade sensação-intuição relaciona-se à percepção. O tipo perceptivo que Jung denominou orientado à sensação é orientado a estímulo e sintonizado aos particulares da realidade aqui e agora. O tipo intuitivo obscurece os detalhes, mas entende o quadro geral. O tipo sensação vem a entender uma situação reunindo os detalhes; o tipo intuitivo capta a situação geral antes de tentar assimilar suas partes. O tipo sensação vê as árvores primeiro; o tipo intuitivo vê a floresta primeiro.

         A polaridade entre pensamento e sentimento lida com processamento de informações e julgamento. No modo pensamento, os dados são avaliados de acordo com o princípio lógico. Sentimento, no pólo oposto, envolve fazer julgamentos através de processos não lógicos relacionados a valores e entender os relacionamentos. Nos relacionamentos sociais, o tipo pensamento lida com as pessoas de acordo com sua classe social e a tradição da etiqueta; um tipo sentimento lida com os outros em termos dos seus relacionamentos sociais presentes ou estado emocional percebido.

         Os três eixos indicados na Figura 3 tipificam cada pessoa. A sensação verifica que algo existe. O pensamento diz o que isso é. Os sentimentos atribuem valor a isso. Através da intuição, suas possibilidades podem ser apuradas. Um tipo extrovertido-sensação-pensamento é orientado para o mundo real, tende a perceber detalhes e os organiza em uma estrutura lógica. Um tipo introvertido-intuição-sentimento é auto-orientado, capta situações como um todo e é sensível às suas implicações emocionais.

         O complexo psíquico de todos contém todos os tipos. Mas cada pessoa tem um conjunto superior de funções, tipos que são desenvolvidos desde o início da vida e que são moldados fortemente por fatores constitucionais. Na segunda metade da vida, os adultos que continuam o processo de individuação tentam integrar ou ampliar e aprofundar seu entendimento de suas funções inferiores. Tipos pensamento tornam-se mais cientes dos sentimentos; tipos sensação permitem-se se basear mais em intuição.

         PSICOPATOLOGIA. Jung definiu neurose como uma dissociação da personalidade em decorrência dos complexos. Quando um outro complexo torna-se incompatível com o complexo do ego, a pessoa experimenta ansiedade. Para conter a ansiedade, a pessoa dissocia o complexo incompatível do ego e manobra inconscientemente contra o ego ou outros complexos identificados com o ego. Esta dissociação capacita a pessoa a sobreviver os dois complexos incompatíveis, um mais identificado com o ego e o outro mais ego distônico. O complexo ego distônico é freqüentemente experimentado como sendo infligido pelo mundo externo ("eu estou sendo maltratado" ao invés de "eu tenho um conflito interno"). A cisão fica particularmente evidente em transtornos de conversão e dissociativos e é uma explicação especialmente boa do fenômeno das múltiplas personalidades. Dentro da psique o ego ou personalidades parciais ou complexos opera junto com personalidades-sombra antitéticas a elas. Além disso, a anima ou o animus e as imagens arquetípicas do self tentam integrar e controlar o caso. As dissociações de personalidades que aparecem no transtorno de múltipla personalidade são manifestações dos complexos e do self.

         Os extrovertidos tendem a desenvolver sintomas de conversão ou a tornar-se anti-sociais. Os introvertidos tornam-se distímicos, ansiosos e obsessivos. Os sintomas são freqüentemente relacionados à tentativa de emergência de funções inferiores. Visto deste modo, condições patológicas podem conter dentro delas a luta em direção à integridade ou saúde; funções inferiores tentam tornar-se integradas ao invés de dissociadas da consciência. A integração das funções inferiores freqüentemente requer reorganizações emocionalmente dolorosas de pensamentos, atitudes e estilo de vida conscientes.

         A tentativa de expressão de funções inferiores não precisa resultar em psicopatologia. Pessoas com funções de pensamento altamente desenvolvidas podem encontrar-se desejando experimentar a vida mais plenamente e podem envolver-se em relacionamentos extramaritais altamente emocionais. Ao explorar, pode-se encontrar perda não resolvida de uma pessoa cuidadora com inabilidade resultante cedo na vida de obter intimidade com uma mulher. O processo de busca de intimidade é encenado fora do relacionamento marital porque à esposa foi designado o papel da mãe fria abandonadora.

         Aplicação. Jung sugeriu que a terapia começasse com quatro visitas por semana e então fosse espaçada para uma ou duas por semana.

         Os clínicos jungianos atuais trabalham com seus analisandos uma vez por semana, face-a-face. Jung colocou grande ênfase no relacionamento humano entre analista e analisando e observou que ambos mudam no transcorrer da análise. Ele definiu transferência como a tentativa do paciente de entrar em rapport psicológico com o médico e sustentou que, sem rapport e relação de objeto, as operações técnicas do analista não têm valor algum.

         Com sua ênfase sobre reintegração, simbolismo e sonhos, a análise jungiana parece bem adequada para ajudar pessoas educadas a lidar com problemas desenvolvimentais da meia-idade. Tendo atingido uma identidade profissional, sucesso material e um papel familiar firme, eles freqüentemente começam a perguntar "O que é o meu eu real?" "O que é mais importante para mim?" e "Qual é o meu relacionamento com a humanidade e com a história humana?" Tais pessoas fortemente dadas à autocrítica a serviço de autoprogresso com freqüência podem ficar aliviadas em encontrar-se descritas como tentando tornar-se plenamente elas mesmas, ao invés de ser mentalmente perturbadas.

Conceitos Principais
 
As Atitudes: Introversão e Extroversão
 
  Dentre todos os conceitos de Jung, introversão e extroversão são os mais usados. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado ou para seu interior ou para o exterior. A energia dos introvertidos segue de forma mais natural em direção a seu mundo externo. Ninguém é puramente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões e é a extroversão. As duas são mutuamente exclusivas; não se pode manter ambas as atitudes, a introversão e a extroversão, ao mesmo tempo. O ideal é ser flexível e capaz de adotar qualquer uma delas quando for apropriado, operar em termos de um equilíbrio entre as duas e não desenvolver uma maneira fixa de responder ao mundo.
  Os interesses primários dos introvertidos concentram-se em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior. Um perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seus mundos interiores, perdendo o contato com o ambiente externo.
  Os extrovertidos envolvem-se com o mundo externo das pessoas e coisas; tendem a ser mais sociais e conscientes do que está acontecendo à sua voltas. Eles necessitam proteger-se para não serem dominados pelas exterioridades e alienarem-se de seus próprios processos internos.


As Funções: Pensamento, Sentimento, Sensação, Intuição
 
  Jung identificou quatro funções psicológicas fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Cada função pode ser experienciada tanto de uma maneira introvertida quanto extrovertida.
  O pensamento e o sentimento eram vistos por Jung como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O pensamento está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. Sentir é tomar decisões de acordo com julgamentos de valores próprios.
  Jung classifica a sensação e a intuição, juntas, como as formas de apreender informações, ao contrário das formas de tomar decisões. A sensação refere-se a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos, o que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar.
  A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. Pessoas intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que via de regra não conseguem separar suas interpretações dos dados sensoriais brutos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada e informações relevantes à experiência imediata.
  Para o indivíduo, uma combinação das quatro funções resulta em uma abordagem equilibrada do mundo: uma função que nos assegure de que algo está aqui (sensação); uma segunda função que estabeleça o que é (pensamento); uma terceira função que declare se isto nos é ou não apropriado, se queremos aceitá-lo ou não (sentimento); e uma quarta função que indique de onde isto veio e para onde vai (intuição). Entretanto, ninguém desenvolve igualmente bem todas as quatro funções. Cada pessoa tem uma função fortemente dominante, e uma função auxiliar parcialmente desenvolvida. As outras duas funções são em geral inconscientes e a eficácia de sua ação é bem menor. Quanto mais desenvolvidas e conscientes forem as funções dominante e auxiliar, mais profundamente inconscientes serão seus opostos. Jung chamou a função menos desenvolvida em cada indivíduo de "função inferior". Esta função é a menos consciente e a mais primitiva e indiferenciada.

 
Inconsciente Coletivo
 
  Jung descreve que nós nascemos com uma herança psicológica, que se soma à herança biológica. Ambas são determinantes essenciais do comportamento e da experiência.
  O inconsciente coletivo inclui materiais psíquicos que não provêm da experiência pessoal. Alguns psicólogos, como Skinner, assumem implicitamente que cada indivíduo nasce como um quadro em branco, uma tábula rasa; em conseqüência, todo desenvolvimento psicológico vem da experiência pessoal. Jung postula que a mente da criança já possui uma estrutura que molda e canaliza todo posterior desenvolvimento e interação com o ambiente.
  O inconsciente coletivo é constituído, em uma proporção mínima, por conteúdos formados de maneira pessoal; não são aquisições individuais, são essencialmente os mesmos em qualquer lugar e não variam de homem para homem. Este inconsciente é como o ar, que é o mesmo em todo lugar, é respirado por todo o mundo e não pertence a ninguém. Seus conteúdos (chamados arquétipos) são condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral.


Arquétipo
 
  Dentro do inconsciente coletivo há "estruturas" psíquicas ou arquétipos. Tais arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. Jung também chama os arquétipos de imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. De acordo com Jung, os arquétipos, como elementos estruturais formadores que se firmam no inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.
  A história de Édipo é uma boa ilustração de um arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípica que lida com o relacionamento do filho com seus pais.
  Cada uma da sprincipais estruturas da personalidade são arquétipos, incluindo o ego, a persona, a sombra, a anima (nos homens), o animus (nas mulheres) e o self.

Símbolos
  De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo harmonizar-se com o material inconsciente organizado ao redor de um arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa, emocionalmente carregada.
  Jung está interessado nos símbolos "naturais" que são produções espontâneas da psique individual. Além dos símbolos encontrados em, sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas de David e a roda da vida budista.


O Ego
 
   O ego é o centro da consciência e um dos maiores arquétipos da personalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente. De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não há elementos inconscientes no ego, só conteúdos conscientes derivados da experiência pessoal.

A Persona
 
  Nossa persona é a forma como nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo "persona" é derivado da palavra latina equivalente a máscara. As palavras "pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este termo.
  A persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Jung chamou também a persona de "arquétipo da conformidade". Entretanto, a persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Ela pode desempenhar, com freqüência, um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso ego se altera gradualmente nessa direção.


A Sombra
 
  A sombra é o centro do inconsciente pessoal, o núcleo do amterial que foi reprimido da consciência. A sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Ela representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.
  Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da sombra, que se torna, em certo sentido, um self negativo, a sombra do ego. A sombra é via de regra vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material da sombra for trazido à consciência, ele perde muito de sua natureza amedrontadora e escura.
  A sombra é mais perigosa quando não é reconhecida. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela sombra sem o perceber. Quanto mais o material da sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Uma pessoa sem sombra não é um indivíduo completo, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós.
  Cada porção reprimida da sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente. À medida que a sombra se faz mais consciente, recuperamos partes de nós mesmos previamente reprimidas. Além disso, a sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os arquétipos, a sombra origina-se no inconsciente coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo ego e pela persona.


Anima e Animus
 
  É uma estrutura inconsciente que representa a parte sexual oposta de cada indivíduo; Jung denomina tal estrutura de anima no homem e animus na mulher.

Self
 
  O self é o arquétipo central, arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. Segundo Jung, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas completam-se mutuamente para formar uma totalidade: o self. O self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal. É um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao ego e à consciência. O self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente; é o centro desta totalidade, assim como o ego é o centro da consciência.
 



sexta-feira, 20 de abril de 2012


"Ache belo tudo o que puder,
a maioria das pessoas não acha belo
o suficiente."
Vincent Van Gogh