SOBRE O PERDÃO E O PERDOAR pela Psicóloga Teresa Paula Marques
SOBRE O PERDÃO E O PERDOAR
Odiar alguém, manter o ressentimento, é uma forma de ficar preso ao passado e a essa pessoa.
Algumas pessoas são levadas a pensar que perdoar é um acto simples.
Puro engano. O verdadeiro perdão não é aquele que resulta de uma atitude
de arrogância do tipo “vou passar por cima do assunto, porque sou
melhor que tu e, por isso mesmo, até te consigo perdoar”.
O
perdão genuíno é muito mais do que isso. É o culminar de um processo que
requer coragem, determinação e, acima de tudo, reflexão. Quando afirmo
que não é fácil, tenho como ponto de partida o facto de as ofensas mais
dolorosas estarem, no geral, associadas a um ataque à auto-estima. Por
este motivo são geradoras de tanto ódio e ressentimento. Sofremos porque
sentimos que fomos alvo de uma injustiça, de um ataque que nos atinge
muito fundo e provoca graves feridas emocionais. Mas não é possível
falar de perdão, sem falar do ódio.
Esse sentimento tão intenso
que vive nas antípodas do amor e que se parece tanto com ele … aliás,
já todos nós um dia nos questionámos, porque é que o nosso vizinho
mantém o casamento com a mulher, apesar de se darem tão mal? O elemento
de ligação passou a ser o ódio, ao invés do amor.
Atacam-se,
destroem-se progressivamente mas mantêm-se juntos numa relação
sadomasoquista. É também este tipo de mecanismo que impede muitas
pessoas de perdoarem outras. Remoem os assuntos vezes sem conta, anos a
fio, sem saírem do mesmo lugar e sem terem a coragem de dar o passo
seguinte que poderia iniciar o processo que levaria ao perdão. Mas não é
isso que desejam.
Muitas relações que têm o ódio como laço,
não sobreviveriam ao perdão. O ódio é, assim, a única forma de evitar o
sentimento de vazio e, por conseguinte, a depressão. Mas, perdoar é
bastante distinto de esquecer. É preciso recordar a situação traumática
para só depois conseguir arrumá-la. Trazer a dor à superfície e,
posteriormente, passar a analisar até que ponto esta situação mudou as
nossas vidas.
Um exemplo muito comum surge após a ruptura de
uma relação afectiva. Algumas mulheres cedem à tentação de generalizar e
afirmam coisas do tipo “os homens são todos iguais”. Assim, a situação
de amor frustrado, levou à alteração da percepção do mundo e este é um
ponto que se torna necessário realinhar. Seguidamente, é preciso criar a
capacidade de empatia com o agressor.
Esta é, seguramente, a
fase mais complicada de todo o processo, porque implica conseguirmos ser
capazes de nos colocarmos na pele de quem nos fez mal e percebermos o
porquê do que aconteceu. Talvez nos tivéssemos encontrado no lugar certo
mas no momento errado, talvez alguém no passado lhe tenha feito a mesma
coisa, talvez, talvez… podemos também argumentar que nada temos a ver
com isso. Afinal de contas não temos de ser atingidos por coisas que não
foram da nossa responsabilidade! É verdade… mas, há que ter bem
presente que o objectivo a atingir é conseguirmos perdoar o agressor e,
este objectivo envolve-se de aspectos muito positivos, tanto a nível
psicológico, como físico.
É hoje consensual na comunidade
cientifica, que são enormes os benefícios do perdão. As pessoas movidas
constantemente por desejos de vingança, colocam-se muito mais numa
situação de risco de morte prematura devido a doenças cardiovasculares. O
acto de perdoar diminui a tensão arterial, reduz a pressão sanguínea e a
taxa de batimentos cardíacos.
Além do mais, o ressentimento e a
falta de perdão são âncoras que mantemos no passado. Impedem-nos de ir
para a frente, de colocar definitivamente pontos finais na situações e,
em vez disso, optamos pelas reticencias, pelos finais em aberto que
apenas nos trazem mais e mais dor . Para quê ? Com que objectivo ? Só se
formos masoquistas…
Psicóloga Teresa Paula Marques
Fonte: http://www.teresapaulamarques.com/
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