Choque de gerações ou conflito de hábitos?
Por: Rodrigo Rocha
Vivenciando uma época em que as gerações
chamadas Baby Boomers, Geração X, Geração Y e Geração Z convivem e
convergem entre si, percebo que a vida atual está plena de luta interna
devido ao antagonismo dos sistemas de tendências, em que a vontade de
uma geração poderia se manter na direção da outra se não fizesse caso de
suas diferenças. Na minha opinião, o que pesa nesse contexto não é o
chamado “choque de gerações”, mas sim um “conflito de hábitos”.
Os hábitos influem consideravelmente na civilização, permitindo ao
ser humano conservar suas conquistas, dando-lhe a liberdade para
conseguir novos progressos. Evitam os movimentos inúteis e permitem ao
homem agir de maneira mais eficaz. Estabilizam a mente,
sistematizando-a, ou seja, sem os hábitos a sociedade não seria
concebível. No entanto, existe o outro lado. Se os hábitos definem a
natureza humana, igualmente a desfazem. Constroem e também destroem.
São como necessidades da vida e, no entanto, criam grandes problemas ao
mesmo tempo. Todas as gerações podem ser
identificadas pela maneira característica de como agem ou agiam em
relação a determinamos fatores de sua época (política, relação familiar,
sexualidade, etc.). Não darei detalhes de cada geração específica (esse
trabalho já foi feito muitas vezes) , porém, gostaria de refletir sobre
o reflexo desses hábitos no mercado de trabalho.
Nascidos após a Segunda Guerra, entre 1945 a 1964, os Baby Boomers
eram os filhos da esperança de um mundo que havia sofrido muito com as
crises econômicas (como a queda da bolsa de 1929) e com o segundo
conflito mundial. Em sua época, encontravam valorização do trabalho numa
única empresa, geralmente regida por regras claras, horários definidos e
crescimento profissional que, por sua vez, acontecia mais pelo tempo de
trabalho dedicado a essa empresa, do que por experiências encontradas
fora deste contexto. Na realidade atual, os indivíduos dessa geração são
considerados pouco flexíveis e resistentes às mudanças contínuas e
constantes presentes em nosso tempo.
A geração X veio na sequência e vivenciou tempos incertos por conta
da Guerra Fria, Ditaduras, crises econômicas de energia e o surgimento
de novas doenças, como a AIDS. Consumidora dos primeiros computadores e
videogames, esta geração, nascida entre 1960 e 1980, define-se por seu
dinamismo e competitividade, por sua habilidade em se reinventar e se
preparar mais para o mercado de trabalho. Pós-graduações, MBAs e PHDs
fazem parte desse processo.
Folgados, mimados, distraídos e insubordinados são apenas uns dos
adjetivos para a Geração Y. Grande parte desta geração pretende
conseguir ascensão profissional e financeira até os trinta anos.
Nascidos numa época de muitas rupturas (queda do Muro de Berlin, queda
de regimes, ditaduras e de muitos conceitos pré-estabelecidos) são os
filhos do divórcio, mas também da era digital, da internet, da
preocupação com o meio ambiente e da vontade em fazer e ter as aquilo
que querem, do jeito que querem. O interessante de se observar na
população Y é a materialização do que antes era apenas um conceito para
as reprimidas gerações anteriores. Com ideais de liberdade às vezes
confusos, porém bem definidos, buscam trabalhar no que realmente gostam e
têm plano de carreira compatível com aquilo que mais lhes agrada. Se
não se sentem reconhecidos no trabalho simplesmente batem em retirada e
vão em busca de oportunidades melhores. Empresas como Microsoft, Apple,
Facebook defendem este conceito e dão a estes jovens um ambiente
profissional em que possam expressar sua criatividade e talento.
A geração Z, iniciada em 1998, pode ser definida como a versão 2.O da
geração Y e já nasceu “conectada”. Seus representantes não precisam de
“manuais” para aprender, eles são a geração da “prática”. Uma
característica marcante desse grande grupo é a necessidade de estarem
sempre em contato com o outro, não necessariamente de forma física, mas
pelas redes sociais atuais ou qualquer outra ferramenta de comunicação
que venha surgir no mundo. Fazem parte da era dos indivíduos
multitarefas que se sentem mais motivados a estudar e trabalhar por
conta da tecnologia, em um ambiente de compartilhamento e colaboração.
Todas essas gerações constituem um determinado número de hábitos. Um
hábito é como um caminho conhecido e, portanto, mais cômodo para ser
trilhado. A verdade porém se faz de uma verdadeira contradição:
desejamos o progresso sem “abrirmos mão” de mudar a nós mesmos.
Argumentamos sobre uma nova ideia, um novo tipo de conduta preconizado
por alguém, mas, particularmente, resistimos, sem adotá-la. De maneira
frequente, perdemo-nos face a tantas mudanças e, quando o orgulho
permite, pedimos ajuda, porém, ao sermos apresentados a uma nova e
possível trajetória, não a seguimos. Voltamos atrás, dizemos que o novo
conceito não serve; pedimos um novo remédio alienante sem percebermos a
alegria das “velhas manias” nos falando baixinho para que permaneçamos
firmes na antiga direção, ainda que essa seja a estrada para o fracasso.
A razão principal para que um hábito diferente não seja almejado é o
próprio hábito. O maior motivo para que uma pessoa não se aperfeiçoe é
não ter se aperfeiçoado no dia anterior. Não realizou hoje porque não
havia realizado ontem. A dificuldade para novos aprendizados do
trabalhador da geração mais antiga não se deve a uma incapacidade
causada pela idade, mas por velhos hábitos que se interpõem, impedindo a
mente do adulto a aceitar o novo e adaptar-se. O paradigma da “idade
avançada” coloca tanto tempo e tanta energia sobre uns poucos hábitos
que as pessoas não encontram forças para se modificarem. Trata-se de uma
pressão tão forte que, aos poucos, arruína o indivíduo, pois cria nele
um desagradável espírito crítico às gerações mais novas, não existindo
em si qualquer inclinação para aceitar o mundo tal como realmente é e
manter-se afinado com a sua época. São como certas trepadeiras selvagens
que se repugnam e enrolam-se nas novas plantas impedindo-as de crescer.
Em casos restritos, as gerações, ao invés de se chocarem,
encontram-se. Na minha família, tenho o privilégio de vivenciar essa
sintonia. Meu pai é um Baby Boomer; meu irmão e eu somos crias da
Geração Y. Certamente somos diferentes. Meu pai é o percursor dos sonhos
de tudo que temos; nós, os herdeiros dos sonhos que ele plantou. Ele é
um homem com visão e empreendedorismo distintos dos meus, porém
colhemos, agora, todos juntos, de forma cada vez mais criativa e
conectada com o mundo que nos cerca, o fruto de nossas experiências.
Crescemos todos, aprendemos, erramos, mas em nossa busca constante nada
se perdeu, tudo se renovou. Nessa jornada, aprendi, então, a plantar os
meus próprios sonhos.
“Velhice é uma questão de hábitos, não de anos”. Em casa, aprendi
essa lição. O diferente não é ruim; tão pouco, inferior. Basta
compreendê-lo. Ser diferente é apenas uma questão de ponto de vista e
tal ponto não deve ser desprezado, pois nele pode estar implícito a
matéria prima para grandes mudanças e novas transformações.
Ironicamente, escrevo com o rádio ligado e a música tocada nesse
momento é “Pais e Filhos”, do Renato Russo. A letra dessa canção traduz,
em poesia, muito do que foi dito nesse texto: “o que você vai ser
quando você crescer?”. Com tantas possibilidades de escolhas não é
difícil nos perdermos. O mundo está mudando em uma velocidade
assustadora. Novos hábitos tornam-se velhos em questão de dias.
Precisamos evoluir, adaptar-nos. Não é uma tarefa simples, mas responder
diariamente a genial questão (pelo contexto em que foi escrita) deixada
pelo compositor pode nos ajudar a encontrar um caminho.
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Rodrigo Rocha é diretor de marketing da Amil, onde atua também na parte de Inovação. É cofundador da One Health, unidade de negócio do grupo Amil voltada ao segmento premium. Foi
um dos primeiros executivos do Brasil a se integrar à Singularity
University, no Vale do Silício, considerada a universidade que cria o
futuro. Obteve o MBA em Finanças pelo IBMEC.
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