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Descubra as mentiras que o seu cérebro conta para você
Você fica cego 4 horas por dia. Já foi enganado por um rótulo nesta
semana. Tem preconceitos sobre todos os assuntos (por mais que ache que
não). Toma decisões irracionais, que vão contra os seus interesses. Você
não está no controle da própria mente. Mas não se preocupe: você é
normal. Não é maluco e possui um cérebro perfeito, como o de qualquer
outra pessoa. Só que ele inventa coisas para iludir você. Não é por mal.
É só uma maneira de economizar energia.
O cérebro humano é o objeto mais complexo do Universo. Tem 100 bilhões
de neurônios, que podem formar 100 trilhões de conexões. Se fosse
possível criar um computador com o mesmo número de circuitos do cérebro,
ele consumiria uma quantidade absurda de eletricidade: 60 milhões de
watts por hora, segundo uma estimativa de cientistas da Universidade
Stanford. É o equivalente a quatro usinas de Itaipu trabalhando
simultaneamente. Mas o cérebro humano gasta pouquíssima energia - 20
watts, menos que uma lâmpada. E mesmo assim consegue fazer coisas
extremamente sofisticadas, de que nenhum computador é capaz.
Só que isso tem um preço. O seu cérebro não consegue analisar as
situações de forma completamente racional, avaliando todas as variáveis
envolvidas em cada caso. Para fazer isso, ele precisaria de ainda mais
circuitos - e muito mais energia. Mas, ao longo da evolução, a natureza
encontrou uma solução: o cérebro pode mentir para seu dono. Sim, mentir.
Descartar informações, manipular raciocínios e até inventar coisas que
não existem. Dessa forma, é possível simplificar a realidade - e reduzir
drasticamente o nível de processamento exigido dos neurônios. "São
efeitos colaterais do funcionamento normal do cérebro", diz Suzana
Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ).
Tudo começa pela visão. Você não percebe, mas o cérebro edita o que
você vê. Das 16 horas por dia que uma pessoa passa acordada, em média, 4
horas são preenchidas por imagens "artificiais" - que não foram
captadas pelos olhos, e sim criadas pelo cérebro.
O olho humano só capta imagens com clareza em uma pequena parte, a
fóvea, que tem 1 milímetro de diâmetro e fica no centro da retina.
Então, para compor a linda imagem que você está vendo agora, os seus
olhos estão constantemente em movimento. Eles focam determinado ponto e
depois pulam para o ponto seguinte. Cada um desses saltos tem duração de
0,2 segundo. Quer comprovar isso na prática? Na próxima vez em que você
estiver conversando com uma pessoa, preste atenção nos olhos dela. Você
irá perceber que eles se movimentam o tempo todo para escanear vários
pontos do seu rosto.
O problema é que a cada pulo desses, enquanto os olhos estão se movendo
para a próxima posição, o cérebro deixa de receber informação visual
por 0,1 segundo. Durante esse tempo, você está cego. E, como nossos
olhos fazem pelo menos 150 mil pulos todos os dias, o resultado são 4
horas diárias de cegueira involuntária. Você não percebe isso porque o
cérebro preenche esses momentos com imagens artificiais, que dão a
sensação de movimento contínuo. Mas que, na prática, você não viu.
Tem mais: o que você enxerga não é o que está acontecendo - e sim o que
vai acontecer no futuro. É sério. Isso acontece porque a informação
captada pelos olhos não é processada imediatamente. Ela tem de passar
pelo nervo óptico e só depois chega ao cérebro. O processo leva frações
de segundo, e você não pode esperar - um atraso na visão pode fazer com
que você seja atropelado ao atravessar a rua, por exemplo. Então, o que
faz o cérebro? Inventa. Analisa os movimentos de todas as coisas e
fabrica uma imagem que não é real, contendo a posição em que cada coisa
deverá estar 0,2 segundo no futuro. Você não vê o que está acontecendo
agora, e sim uma estimativa do que irá acontecer daqui a 0,2 segundo.
As mentiras invadem a razão
Com R$ 1,10, você pode comprar um café e uma bala. O café custa R$ 1 a mais do que a bala. Quanto custa a bala? Responda rápido. Dez centavos, certo? Errado. Você acaba de ser enganado pelo próprio cérebro. Mas não está sozinho - mais da metade dos estudantes de universidades prestigiadas como Harvard, MIT e Princeton responderam a essa mesma pergunta e também erraram (entre alunos de instituições menos badaladas, o índice de erro é ainda maior, cerca de 80%). Essa charada é um dos exemplos citados no livro Thinking, Fast and Slow (Pensando, Rápido e Devagar, ainda sem versão em português), do psicólogo israelense Daniel Kahneman, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia por suas pesquisas sobre o comportamento humano.
Para Kahneman, o cérebro tem dois tipos de pensamento. O primeiro é
rápido e intuitivo e confia na experiência, na memória e nos sentimentos
para tomar decisões. O segundo é lento e analítico - e serve como uma
espécie de guardião do primeiro.
Se estamos decidindo sobre o que comer, podemos ficar em dúvida entre
um sanduíche e um prato de feijão. Mas por que essas duas opções, justo
elas, surgiram como as alternativas válidas para o momento? Por que você
não considerou um bacalhau com batatas? Por que não um sorvete de
abacaxi? Porque o seu pensamento intuitivo já estava inclinado para
optar pelo sanduba ou pelo feijão e restringiu previamente as escolhas
antes mesmo que você se desse conta de que estava chegando a hora de
almoçar. Do contrário, passaríamos horas avaliando todas as possíveis
opções de refeição - e morreríamos de fome. Se o pensamento intuitivo
não existisse, seria extremamente difícil escolher uma roupa ou
responder a perguntas banais, do tipo "como você está?" ou "gostou do
filme?". De certa forma, o pensamento intuitivo é o que nos diferencia
dos robôs. E é ele que permite ao cérebro processar informações na
velocidade necessária. "Ele é mais influente. É o autor secreto de
muitas decisões e julgamentos que você faz", explica Kahneman no livro.
Foi o pensamento intuitivo que apontou os dez centavos como resposta
para o enigma do café. Só que ele mentiu para você. A resposta certa é
R$ 0,05. Se a bala custasse R$ 0,10, o café custaria R$ 1,10 - e o total
daria R$ 1,20.
Esse duelo entre os dois tipos de pensamento, o rápido-intuitivo e o
lento-analítico, também tem uma explicação evolutiva. O córtex
pré-frontal, região do cérebro responsável pelo processamento lógico,
surgiu relativamente tarde na evolução da espécie humana - já as emoções
e os instintos estavam com nossos ancestrais há muito mais tempo. Por
isso elas são tão fortes e nos influenciam tanto. "A filosofia considera
o ser humano um animal racional. Mas o que sabemos é que apenas em
certas circunstâncias e à custa de muito esforço conseguimos ser
racionais", afirma Vitor Haase, médico e professor de psicologia da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O pensamento intuitivo está sempre presente, até nas situações em que a
racionalidade é supremamente importante. Um estudo de pesquisadores das
universidades de Ben Gurion, em Israel, e Columbia, nos EUA, analisou o
comportamento de juízes que deveriam decidir sobre a liberdade
condicional de presos (um processo rápido, que leva 6 minutos). Em
média, somente 35% dos condenados ganhavam a condicional. Mas os
cientistas perceberam que os juízes eram muito mais benevolentes depois
de comer. Quando eles tinham acabado de fazer uma refeição, a taxa de
aprovação subia para 65%. Com o passar do tempo, a fome vinha chegando, e
a concessão de liberdade condicional ia caindo. Minutos antes do
próximo lanche, o índice de aprovação era quase zero.
Decidir sobre liberdade condicional e julgar a própria felicidade são
tarefas complexas. Para avaliar todas as variáveis envolvidas, muitas
delas subjetivas, o cérebro tenderia a ficar sobrecarregado. Por isso,
ele usa atalhos. "Os nossos problemas são resolvidos no piloto
automático, através de soluções que a cultura já embutiu no nosso
cérebro", diz Haase.
Estudos têm revelado outra distorção: toda pessoa sempre tende ao
otimismo, mesmo quando não há motivos para isso. A pesquisadora Tali
Sharot, da University College London, gravou a atividade cerebral de
voluntários enquanto eles imaginavam situações banais - como tirar uma
carteira de identidade. Ela também pediu que os voluntários pensassem em
coisas do passado. Os testes mostraram que as mesmas estruturas
cerebrais são ativadas para recordar o passado e imaginar o futuro. Só
que, ao imaginar o futuro, os voluntários criavam cenários magníficos -
era o cérebro tentando colorir os eventos sem graça. "Cerca de 80% das
pessoas têm tendência ao otimismo, algumas mais do que outras", diz ela.
Para Tali, autora do livro Optimism Bias (O Viés do Otimismo, ainda sem
versão em português), o otimismo é sempre mais comum que o pessimismo -
seja qual for a faixa etária ou o grupo socioeconômico da pessoa.
Assim, nunca acreditamos que algo vá dar errado - mesmo quando o mais
racional seria pensar que sim. "As taxas de divórcio, por exemplo,
chegam a 40%, 50%. Mas as pessoas que estão para casar sempre estimam
suas chances de separação em o%", exemplifica Tali. Segundo ela, a
inclinação natural ao otimismo também é um dos fatores que levaram à
crise econômica global de 2008. "As pessoas achavam que o mercado
continuaria subindo cada vez mais e ignoraram as evidências contrárias",
afirma.
Ele está no controle
As manipulações criadas pelo cérebro afetam até a capacidade mais essencial do ser humano: tomar as próprias decisões. Quando você decide alguma coisa, na verdade o cérebro já decidiu - com uma antecedência que pode chegar a 10 segundos. Uma experiência feita no Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim, comprovou que as nossas escolhas são resolvidas pelo cérebro antes mesmo de chegarem à consciência. Voluntários foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma sequência aleatória de letras. O voluntário tinha que escolher uma das letras e apertar um botão sempre que ela aparecesse. Os cientistas monitoraram o cérebro dos participantes durante o experimento. E chegaram a uma descoberta impressionante: 10 segundos antes de os voluntários escolherem uma letra, sinais elétricos correspondentes a essa decisão já apareciam nos córtices frontopolar e medial, as regiões do cérebro ligadas à tomada de decisões. Cinco segundos antes de o voluntário apertar o botão, o cérebro ativava os córtices motores, que controlam os movimentos do corpo. Isso significa que, 10 segundos antes de você fazer conscientemente uma escolha, o seu cérebro já tomou a decisão para você - e até já começou a mexer a sua mão.
"O indivíduo não é livre para escolher", afirma Renato Zamora Flores,
professor de genética do comportamento da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). O cérebro restringe previamente as suas possíveis
opções e, pior ainda, escolhe uma delas antes mesmo que você se dê
conta. É possível lutar contra isso. Lembra-se daquele outro tipo de
pensamento, o lento-analítico? Basta colocá-lo em ação. E isso você
consegue tendo calma, refletindo sobre as coisas e duvidando das suas
escolhas e opiniões. Os truques do cérebro são poderosos, mas não
invencíveis. Agora que você sabe como funcionam, está muito mais
preparado para lidar com eles - e se tornar realmente livre para tomar
as próprias decisões.
PARA SABER MAIS
Como a Mente Funciona
Steven Pinker, Companhia das Letras, 1998.
Steven Pinker, Companhia das Letras, 1998.
Thinking, Fast and Slow
Daniel Kahneman, Farrar, Straus and Giroux, 2011.
Daniel Kahneman, Farrar, Straus and Giroux, 2011.
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